O primeiro filme

O primeiro filme a gente nunca esquece né?
Não sei porque escolhi essa frase para começar esse texto. Acho que é porque o primeiro filme a gente nunca esquece né?
Após o Baixada Brothers concluir e exibir o clipe da música Ataque verbal no curso de cinema, muita coisa mudou na vida da gente. A experiência com o Mate Com Angu foi crucial nesse processo. A oportunidade de exibir filmes para quem não tem acesso e de poder observar a reação das pessoas é muito gratificante.
Eu pude perceber isso nitidamente na estréia do “1 Ano e 1 Dia”, documentário que fiz juntamente o João e o Rafael, todos alunos de cinema na Cufa.
Eu sempre me seduzi pelas reações do público de uma maneira em geral. Quando você está falando para um grande público ou tocando e você enxerga nos olhos dele as inúmeras reações, você interage com aquelas reações. Elas te influenciam e acabam ditando a maneira que você vai agir dali em diante. A sensação que um dj tem quando está escolhendo a próxima música que ele vai tocar na pista, deve ilustrar melhor o que eu estou tentando explicar. A reação do público é quem determina seu próximo passo. Mas no cinema eu vi o outro lado da coisa. O filme já está pronto, você não pode mais mexer. Se alguém fizer cara de quem não gostou, você não pode mais acelerar o ritmo por exemplo. O ritmo já está lá.
E dessa maneira eu tive que aprender a aceitar as diferentes opiniões em questão, não dava mais pra voltar atrás. E essa diversidade acaba deixando de ser um problema, à medida que na verdade você está instigando a discussão. As pessoas não precisam pensar como você. E nunca vão pensar. O que elas precisam é discutir. Nós estamos impregnados de modelos e dogmas a serem seguidos; e pouquíssimas pessoas se preocupam em questionar como aquele caminho foi traçado. A que interesses estamos satisfazendo quando absorvemos esse ou aquele comportamento? Dificilmente nos questionamos nesse sentido. E é por isso que eu tenho ficado em êxtase permanente com as exibições de nosso filme. É muito maneiro ver as caras e bocas que o público faz durante as exibições. Na segunda do CCBB tinha um cara, que por coincidência estava sentado ao meu lado, que xingava o tempo todo e dizia que aquilo era tudo mentira. O mais interessante é que ele falava baixinho, como se estivesse dizendo para ele mesmo. O cara não queria incomodar, sabe qual é?
Na hora eu fiquei muito curioso em saber quem era aquele cara. Comecei a planejar a abordagem após o filme, “e aí, gostou”. Mas infelizmente ele foi embora na hora que os personagens começaram a questionar a ação dos maus policiais. Aí ficou a incógnita. Será que ele é polícia? Será que ele é um senhorio? Ou uma pessoa que está tendo problemas com um caseiro? Um grileiro é difícil.
Depois de ficar um tempão me perguntando quem seria aquele sujeito estranho que foi embora, eu tive o insite. Não interessa quem ele é. Ele é uma pessoa como eu e como você, que sofre, que chora, que ri, quando assiste uma história que te toca. E ele foi tocado por aquela história. De uma maneira geral, as pessoas têm um sentimento de satisfação quando os heróis populares exibem o prêmio por vencer o desafio que lhes foi proposto. Mas foi tocado de alguma maneira e é essa a diversidade que eu vinha procurando.

Cacau Amaral
4/4/2005

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Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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