Licença ao rap

Neste mês recebi um convite bem diferente de tudo que costumo fazer. Bem no meio da que eu posso considerar a maior de todas as férias do Baixada Brothers, onde tenho dedicado uma boa parte do meu tempo ao cinema, me convidaram para participar de um grupo que vai concorrer ao samba da Grande Rio de 2006. Grande Rio é a escola de samba da minha cidade, Duque de Caxias e está no grupo especial do carnaval carioca desde 1991. Eu confesso que no início não entendi muito bem por que logo eu. E entre o novo disco do Baixada, ações do cineclube, festivais do “1 Ano e 1 Dia” e pré-produção de “Melhor que um poema”, meu próximo filme; fiquei por quase um segundo indeciso se aceitaria o convite ou não.
Pô, eu não tinha nem 7 anos de idade e já sonhava com uma oportunidade dessas. Sendo assim, eu peço uma licença provisória ao rap para me dedicar a mais esse desafio. Ao rap, mas não ao hip hop, por que o bagulho é doido. E o samba sempre fez parte da realidade da hiphopada do Rio. Por isso, me dedicarei a essa empreitada nos próximos 3 meses, e sem a menor dúvida voltarei desta com mais algumas histórias legais, que provavelmente serão contadas no retorno do Baixada Brothers ou aqui mesmo nesta coluna.
Por coincidência ou não, ano passado, após ler o livro do Alessandro Buzo, o “Suburbano Nato” (http://www.realhiphop.com.br/colunas/cacau/index15.htm), propus a ele que fizéssemos um disco sobre a saga do nosso herói Ricardo, protagonista deste romance periférico. O Alessandro achou ótimo. A minha idéia surgiu depois de perceber que o cotidiano do jovem da periferia de São Paulo não tinha nenhuma diferença do meu. Parecia até que o Ricardo era meu vizinho aqui na Baixada. As mesmas brincadeiras, os mesmos problemas com drogas, as mesmas prostitutas, o rock e principalmente o samba. Enfim, quem nasceu em 72 sabe qualé. Quem não nasceu sabe também. Todo mundo está careca de saber que as crianças de hoje em dia não sabem mais o que é brincar na rua, elas só ficam em casa trancadas de frente para o videogame, e os pais ficam reféns dessa desgraça, pois se por um lado eles entendem que a infância é a parte mais importante da formação do caráter das pessoas, por outro acabam concordando que é melhor as crianças abrirem mão destas brincadeiras, que realmente exercitam sua criatividade, e partirem para aventuras mais sintéticas, que supostamente lhes isentarão da violência do cotidiano urbano.
A mídia ganha muito com isso, pois se as crianças estão presas às rédeas, elas não vivenciarão estas experiências na prática. A cultura da rua perde com isso, pois essa experiência da rua agora pode facilmente ser maquiada e difundida em massa por meios eletrônicos. Não existe outra maneira das crianças terem acesso às coisas, como o samba por exemplo, se não vamos mais para a rua fazer o samba da maneira que ele era feito no passado. Hoje a mídia consegue diluir as músicas populares, como aconteceu com o samba, com o rock e com o próprio rap. Nos três casos a fórmula é colocar as mulheres na posição de submissão, servindo apenas como objeto de adoração para os desejos machistas e tantas outras proezas empregadas para desviar a atenção dos populares.
No princípio o ideal das escolas de samba era fazer músicas sobre a história do povo contada pelo próprio povo, já que as instituições responsáveis por contar estas histórias não estavam fazendo de forma imparcial. Se os institutos educacionais contavam histórias deturpadas sobre nosso povo; nós mesmos, o povo, contaríamos estas histórias a partir de então. Mas o sistema não descansa. Ele se apropria das culturas, aumenta o preço dos ingressos, elitiza o samba e paga os populares para contar histórias de prefeituras, empresas e ações provenientes do próprio sistema.
Diz, diz, diz, diz, diz.

Cacau Amaral
Texto publicado no portal Realhiphop
24/6/2005

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Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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