Entrevista Cacau Amaral – por Alessandro Buzo

Conheci o Cacau Amaral, por volta de 2002 no Rio de Janeiro, nos rolê com o pessoal do Movimento Enraizados, ele era integrante do grupo Baixada Brodhers.

Ele venho cantar na primeira edição do meu evento “Favela Toma Conta”, na rua da minha casa no Itaim Paulista no ano de 2004. Depois disso nos encontramos várias vezes, ele sempre leu meus livros e eu acompanhava seus corres e lembro dele se aventurando (ainda bem) pelo audio visual, recebia emails convocando pra filmagens de seus primeiros curtas.

Cacau Amaral é uma pessoa sincera, amiga e daqueles que tem o dom da disposição.
Hoje ele é um dos diretores do premiado 5X Favela , Agora Por Nós Mesmos, em cartaz nos cinemas.
Dá um puta orgulho ver o amigo crescer, pra sabermos mais sobre esse momento especial na sua vida, entrevistamos ele com exclusividade para nossos Blog´s.
http://www.buzo10.blogspot.com
http://www.buzoentrevista.blogspot.com
http://www.nossocinemabr.blogspot.com

Alessandro Buzo: Cacau Amaral, te conheci no Hip Hop, no grupo Baixada Brodher, qual sua ligação atual com o movimento ??

Cacau Amaral: Estou produzindo um CD chamado “O cinema é igual o rap”. Nele mostro o paralelo entre as duas faces de minha obra, pois da mesma forma que decidi fazer rap após ouvir “Hip hop cultura de rua”, decidi fazer filmes ao assistir os filmes da cultura “faça você mesmo”. Fora isso, gravei recentemente a música Tensão, agressão, reconciliação, (http://www.myspace.com/cacauamaral) para o CD do Antizona, com outros 9 MCs cariocas; entre eles Slow, Dudu de Morro Agudo e Mr Boca. Em 5x favela, fiz questão de deixar a marca do hip hop, com vários grafiteiros cariocas nos intervalos das histórias e MV Bill assinando a música tema com Afroreggae.

Antes produzi a Lica, Soul Cris, Bia, Sandra MC e Charlene na música Guerreira que é guerreira nunca gela, do CD Mulheres do hip hop. É muito louco produzir cinco minas do Rio Grande do Sul, Paraná, Ceará, Acre e tal. Fiz um loop, enviei pra elas fazerem a letra e gravarem com o Fábio ACM e MR Zoy. Depois eles me enviaram a capela e mixei em meu estúdio. O Resultado foi muito positivo. Acabei colocando na trilha sonora de meu filme Guerreiras do Brasil.
Também tenho feito muito rap pro cinema. Em 1 Ano e 1 Dia produzi um, além de colocar o Poder Consciente; e em Melhor que um poema produzi 11 raps, um para cada B.Boy que aparece no filme: Jagal, Reis, Gaúcho, e mais um montão.

Buzo: Você e seu grupo cantaram em 2004 no Itaim Paulista, no primeiro FAVELA TOMA CONTA ? O que lembra desse dia ?

Cacau Amaral: Lembro do Ferrez; do Nino Brown e principalmente da Giovana, que acolheu eu e Dmc na casa de seus pais. Mas a maior lição que tive nesse dia foi ver a molecada sentada no meio-fio lendo gibi da turma da Mônica e você falando sobre seu sonho de montar uma livraria. Parece que foi ontem. Tenho tudo isso filmado. Quem sabe a gente monta um documentário com essas imagens.

Buzo: Hoje o evento vai para 23a edição, como vê a importancia da continuidade ?

Cacau Amaral: Tenho muito orgulho de ter participado do primeiro Favela Toma Conta, ainda mais sabendo que ele continua rendendo frutos até hoje. Você é um guerreiro e merece todo sucesso do mundo. Os grupos ganham com isso por terem espaço pra se apresentar, mas quem ganha muito mais ainda é a comunidade, que tem a oportunidade de curtir música popular de verdade. E também de conhecer a literatura, começando cedo com gibis, migrando pros romances e fechando o ciclo, escrevendo.

Buzo: Como e quando teve o primeiro contato com o Audio Visual ?

Cacau Amaral: Quando gravamos o clipe Ataque verbal, em 2002.
Sempre sonhei com esse clipe e ao descobrir que ele custava muito mais do que poderia pagar, resolvemos produzir nós mesmos. Tinha muita gente boa na CUFA ajudando a gente: Miguel, Cacá, Godot, Dido, Dragaud. Esses caras mostraram o que é cinema pra gente. Minha intenção era só gravar o clipe. Não pensava em fazer filmes, mas fui fisgado pela arte. Afinal, o cinema é igual o rap.

Buzo: Qual foi seu primeiro documentário e que ano foi isso ?

Cacau Amaral: 1 Ano e 1 Dia. É a maior realização de minha vida, depois de 5x favela. Foi logo depois do clipe. Pra produzir o clipe tivemos que estudar e estudar muito. Assistia tudo relacionado ao cinema brasileiro… soviético… Fiquei apaixonado pelos filmes de Vertov. Filmamos a festa de um assentamento e roteirizei o documentário na ilha de edição. Foi um dia de filmagem e oito meses de edição, porque não sacava nada do assunto. A única experiência havia sido o clipe. Aí o Rafael Dragaud me ensinou a fazer roteiro clássico pra ficção. Dividi todo material filmado em 12 passos, de acordo com o livro “O herói de mil faces”. Era o que tinha em mãos. Foi só pra mostrar pros amigos, mas acabei ganhando três prêmios: o primeiro na Mostra do Filme Livre, no Rio; o segundo no Festival da Unioeste, Paraná e por fim um prêmio internacional, na Mostra de Jovens Realizadores do Mercosul. Tenho muito orgulho desse filme. Hoje tive mais uma resposta positiva pra ele. Resisti durante cinco anos à mutilação de 1 Ano e 1 Dia, mas agora que o youtube aceita filme de 15 minutos, pude disponibilizá-lo na íntegra. Fiquei muito feliz, pois 12 horas após levantar o filme, mais de cem pessoas já haviam azssistido. O link é esse.

Buzo: Imaginava chegar onde chegou ? Ter a visibilidade que o 5X Favela te deu agora ?

Cacau Amaral: Imaginava e imagino muito mais. Tenho o maior prazer em falar isso sem nenhuma arrogância, porque 5x favela é fruto de um trabalho longo, meu e de um montão de gente que nunca desistiu. Mas sei que esse não é o fim da linha. Muitos e muitos filmes virão. Temos muitas histórias pra contar ainda. Muitas histórias.

Buzo: Você assistiu meu filme “Profissão MC”, o que achou dele ?

Cacau Amaral: Achei uma puta iniciativa. O mercado cinematográfico é restrito e isso não é exclusividade do Brasil. Tanto eu como você poderíamos cruzar os braços e colocar a culpa nos governos ou em outros cineastas, mas o mais coerente é correr atrás do prejuízo. Fazer um filme não é tarefa fácil pra ninguém, na periferia ou fora dela.
Profissão MC é mais uma obra de guerrilha, uma referência pra uma porrada de gente que poderá falar: Alessandro Buzo é um cineasta com a minha cara. Ele se veste igual a mim, tem os mesmos costumes que eu. Se ele pode eu também posso.

Buzo: Filmes nacionais que marcaram sua vida ?

Cacau Amaral: O mundo mágico dos trapalhões, Gangazumba, Carolina, Manual prático pra atropelar cachorro, Pixote, Durval discos, A ópera do malandro, O pagador de promessas, Cidade de Deus, Compasso de espera, O invasor, À meia-noite levarei sua alma, Os saltimbancos trapalhões.

Buzo: Baixada Fluminense ?

Cacau Amaral: Periferia é Periferia em qualquer lugar

Buzo: Periferia, existe um BOOM cultural, como vê a cena da cultura na periferia e o que destaca ?

Cacau Amaral: Há muito tempo as pessoas mais visionárias já perceberam que caminhamos para um futuro onde a única alternativa de sobrevivência será a tolerância. O passado nos mostrou que todo extremismo leva a consequências desastrosas. A hegemonia da cultura centralizada não tem trazido benefícios para as pessoas e por mais que certas mentes preconceituosas resistam em aceitar, a periferia aprendeu a viver em harmonia entre si. A falta de uma porrada de coisas que temos direito nos fez entender que a solidariedade não é apenas uma virtude, mas uma arma. Sem ela nunca teríamos chegado onde chegamos. Agora é a hora de dividirmos nosso conhecimento com nossos vizinhos do centro.

Dentro desse contexto destaco o hip hop que nunca se calou diante das atrocidades impostas à periferia. Se hoje o cinema colhe frutos desse boom, é porque vários malucos perderam noites e mais noites de sono difundindo essa cultura, primeira dentro da própria periferia e agora fora dela.

Buzo: Qual o seu proximo projeto no cinema ?

Cacau Amaral: Estou terminando um roteiro para o próximo longa. Quero contar muitas histórias sobre nosso país. Tem muita coisa que vemos e vivemos dentro e fora da periferia. Ela é um retrato 3 por 4 do Brasil.
Mas agora estou 100% dedicado a 5x favela. Tivemos a primeira consagração com a conclusão do filme, depois com a crítica – que adorou a obra. Agora é a vez da consumação com a presença do público nas salas e garantia de que virão muitos outros filmes. O público é a figura mais importante nessa história, pois fazemos o filme pra ele.

Buzo: Um ator brasileiro ?
Cacau Amaral: Lázaro Ramos.

Buzo:Uma atríz, também brasileira ?
Cacau Amaral: Roberta Rodrigues.

Buzo: Um diretor ?
Cacau Amaral: Cadu Barcelos. Fiquei muito impressionado com sua história no 5x.

Buzo: Como foi ganhar prêmio com o 5X Favela, como foi o momento ?
Cacau Amaral: Estava sentado com o elenco assistindo a cerimônia de premiação quando anunciaram o primeiro prêmio de 5x favela, “Melhor filme pelo juri popular”. Fiquei doido. Corri pulando pro palco pra receber a estatueta e fizemos um discurso inflamado, como se fosse o último de nossas vidas. Sentei feliz páca e enquanto ainda me ajeitava no lugar, anuncia-se o segundo prêmio, “Melhor trilha sonora”. Depois foram o de “Melhor montagem”, “Melhor roteiro”, “Atriz coadjuvante”, “Ator coadjuvante” e o prêmio maior do festival: “Melhor filme pelo júri oficial”. Foi muito maneiro. Ficamos cansados de sentar e levantar sete vezes.

Buzo: Lançar comercialmente o filme, como tem sido as exibições de Pré-Estréia?

Cacau Amaral: Antes mesmo de lançarmos o filme fomos selecionados para o festival de Cannes. Estava com muito medo da crítica daquele país, pois fizemos o filme pensando em nós mesmos. Não fazíamos ideia se nossas piadas funcionariam fora do Brasil, mas pra nossa surpresa fomos aplaudidos de pé por dez minutos.

No Brasil começamos com duas prés em São Paulo, ambas lotadas. A primeira com debate, onde percebemos que o púbico gostou muito do filme. Esse termômetro foi imprescindível para vermos que estávamos no caminho certo. Todos entenderam nossa mensagem. Depois foi a vez do Rio. Cinema igualmente lotado. De lá pra cá fizemos vários debates, no Cinecufa, Em O Globo, um só para professores. A cada bate papo sentimos mais e mais a sensação que fizemos um bom trabalho.

Buzo:Um sonho?
Cacau Amaral: Tenho muitos. Continuar fazendo filmes, lançar um novo disco de rap e contribuir com a educação cinematográfica do Brasil.

Buzo: Quem é CACAU AMARAL no dia a dia?

Cacau Amaral: Prefiro deixar meus filmes falarem por mim.

Buzo: Considerações finais?

Cacau Amaral: A melhor parte disso tudo é saber que minha obra a cada dia se aproxima mais e mais do que me propus a fazer desde o início. Seja no cinema, na TV, no teatro ou na música; o que mais importa pra mim é o conteúdo. E sempre que puder dar entrevistas pra meus irmãos e eles perceberem que contribuí pra que o Brasil fosse um país melhor para se viver, terá valido a pena.

DMC e Cacau Amaral (formavam o Baixada Brothers), na cozinha da minha casa em 2004, no dia da primeira edição do evento “Favela Toma Conta” que acontecia no momento da foto, em frente da minha casa.

Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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