Porradão de 20 – por Celso Athayde

O Porradão de hoje é com dois daqueles que estão se destacando como as mais bem-sucedidas promessas do cinema nacional, tendo dirigido dois curtas que compõe o filme “5 X Favela – Agora por nós mesmos”.

Cadu Barcellos, 22 anos, integrante da organização Observatório das Favelas. Morador do Complexo da Maré e diretor do filme “Deixa Voar”.

Cacau Amaral, 36 anos, vive em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Dirigiu junto com Rodrigo Felha o filme “Arroz com feijão”.

Desliguem os celulares que a sessão já vai começar!

– Quem eram vocês antes e quem são agora?

01 Cadu Barcellos: Eu era o Cadu Barcellos, morador do Complexo da Maré, um moleque de 23 anos que pra muitos estava remando contra a maré querendo fazer cinema, uma arte elitista, e cara que meus amigos familiares e vizinhos não viam como algo para um favelado. Hoje sou o Cadu Barcellos, morador do complexo da Maré, Cineasta que provou a muita gente que podemos sim ser cineastas, advogados, médicos, astronautas, atores e etc.

2 – Cacau Amaral: A mídia se interessou muito por nossas histórias e entendo isso como uma coisa boa. Mesmo sabendo que internamente não muda muita coisa. Sou o mesmo Cacau Amaral de cinco anos atrás, mas com uma oportunidade a mais de aumentar o bolo de amizade e cooperação profissional. Fazia filmes com meus amigos da CUFA, do Mate com angu e sempre esbarrava com outras galeras pelos festivais e debates, mas agora pude me aproximar muito mais do Vidigal, da Maré… Conheci pessoas muito bacanas e levo isso pra minha vida.

– Um dos pontos comuns em todos os curtas que compõem o filme, seja na leveza e ingenuidade que propõe alguns temas ou no peso que propõe outros, é que a noção de certo e de errado é relativa. Essa noção de ética já foi uma dúvida em algum momento da vida de vocês?

3- Cadu Barcellos: O que é certo ou errado, a linha da legalidade e da moralidade são bem mutáveis pra quem mora na favela e pra mim não é diferente. Tive dúvidas em muitos momentos e acho que posso voltar a tê-las e acho isso muito bom porque me faz refletir sobre o espaço em que vivo e a sociedade em que eu ando, crio, recrio, discuto e quero mudar.

4- Cacau: Tive uma infância isolada dentro de meu bairro. A única experiência cultural fora dele era assistir o filme dos Trapalhões no fim do ano e ver o Papai Noel chegar de helicóptero no Maracanã, tudo nas férias de verão. Durante todo resto do ano, aprendia uma ética muito peculiar com meus vizinhos e quando comecei a frequentar o centro da cidade tive vergonha dessa forma de pensar. Tentei imitar as pessoas de outros lugares, mas o convívio com vários pensadores me trouxe referências que me fizeram perceber a babaquice que estava praticando e inverti o processo de novo: passei a negar a cultura hegemônica e a gritar que minha cultura é que era foda. Hoje vejo que tudo valeu. Esse transitar me fez gozar um novo momento, onde pude agregar experiências de todos os lados e engrossar meu banco cultural.

– O título do “agora por nós mesmos” sugere a mensagem de que foram necessários quase 50 anos para que um filme intitulado “5 vezes favela” fosse realmente dirigido por moradores de favelas. O que no cenário do cinema nacional atual favorece a realização de produtores de favelas e periferias e quais ainda continuam sendo os principais empecilhos?

5- Cadu Barcellos: O que ajuda é o “boom” tecnológico com câmeras digitais, celulares, agora câmeras HD’s que permitem que a gente experiente, faça e faça, coloque a mão na massa. Mas ao mesmo tempo muitos de nossos filmes não têm visibilidade e mercadologicamente falando ainda não fomos inteiramente absorvidos.

6- Cacau: O grito da periferia passa a ser ouvido. Essa voz sempre ecoou em três aspectos: num primeiro momento como um lamento infinito, sem saída; depois como o apontamento de um caminho de desgraça para ambos os lados e num terceiro momento tendo como propósito maior a visão de solidariedade. À medida que os mais privilegiados entendem que a segregação trará consequências para eles mesmos, cria-se esse terceiro momento onde aparentemente a união reina entre a população. Mas sabemos que no fundo isso é só um apontamento, uma vontade. Lutamos para que essa idéia se torne uma união de fato, pois hoje ela acontece apenas entre uma minoria. Tenho fé que 5x favela – agora por nós mesmos contribuirá para esse futuro que tentamos imprimir.

O principal empecilho é o preconceito. Não podemos achar que todo brasileiro tem a mente aberta, pois nem todo mundo teve a oportunidade de conhecer seu país. Se não conhecemos o outro não podemos enxergá-lo como nós mesmos, mas à medida que temos acesso a essas pessoas, temos a oportunidade de sentir na pele o que eles sentem. Acredito que nosso filme é uma oportunidade para muitos brasileiros que nunca tiveram acesso à favela, o tenham através da tela do cinema. Pelo que estou percebendo as pessoas confiam no “agora por nós mesmos” e entendem nosso enquadramento da favela como uma real oportunidade de conhecê-la. A exposição desse espaço; tenso, dramático e alegre ao mesmo tempo; é a melhor forma de corroermos o preconceito, que foi construído em cinco séculos de cultura. Essa virada que vivemos hoje depende de muito trabalho até que tenhamos força para lutar de igual pra igual. Não fazemos isso pela periferia. Fazemos pelo Brasil.

– “Cinco vezes favela”, lançado em 1962, ficou marcado com um dos filmes fundamentais para o advento do cinema novo. Alem do inegável legado social, o que esperam dessa nova versão ?

7- Cacau: O cinema é uma arte de vários braços, entre eles uma ferramenta de proposição de comportamentos. O cinema norte-americano passou um século impondo seu modo de ser ao resto do mundo. Não quero fazer juízo disso, mas entendo que o cinema pode e deve ser usado pela América Latina para difundir nossos valores dentro e fora dela. Fiquei feliz em ver que a crítica européia tem olhos para esse movimento e tenho muito orgulho do em fazer parte disso.

8- Cadu Barcellos: Acho que esse filme também é um marco quando penso que agora é “por nós mesmos”, são realidades, histórias que muitos já até ouviram por ai, mas não estavam impressas cinematograficamente falando, são historias que agora o mundo vai poder ver. E esse filme abre uma porta que esteve há muito tempo trancada, é mostrar um trabalho que vem sendo reconhecido pela crítica, em festivais.

– Você acredita que esse reconhecimento tem sido conquistado por qual motivo? Seria apenas pela bandeira social que o filme levanta?

9- Cadu Barcellos: Acredito que menos pelas questões sociais ou por ser da galera da favela e mais por sua qualidade cinematográfica. Mostrando que democracia sem oportunidade não é democracia, que a oportunidade foi dada e foi correspondida. E que outros filmes venham para carimbar isso.

– Quais foram os momentos mais difíceis no set de gravação?

10- Cadu Barcellos: Fazer um filme é sempre muito difícil, ainda mais no Brasil. No meu caso meu episódio era todo exterior dia, eu necessitava de sol, então eu precisei de uma semana de sol para gravar meu filme. Se chovesse não tinha cena interna para gravar. Mas meu santo é forte e tive uma semana com um sol de rachar. Rs rs

11- Cacau: Dirigir crianças. Eles não respeitam marcas e tornam os ensaios muito mais longos. Já nos testes de elenco, percebemos que seria uma aventura arriscada, mas ao mesmo tempo a intuição nos apontava para um grande leque de possibilidades. Entendo que a disposição em apostar nessa moeda foi uma das forças que levaram ao sucesso do filme.

– E os mais marcantes?

12- Cadu Barcellos: O dia mais marcante foi quando filmei na Maré, no meu lugar, na minha casa meu quintal. Ter feito planos no lugar onde cresci corri, brinquei, aprendi, perdi, ganhei foi mágico pra mim. Eu nunca tinha visto a Maré retratada no cinema, inclusa na mágica que é um filme, um set de filmagem. Foi muito especial.

13- Cacau: Estamos o tempo todo aprendendo. Quando recebi o convite para dividir a direção com o Felha, aceitei por confiar no Cacá; mas ao mesmo tempo fiquei com medo. Antes de 5x favela, tive experiências desgastantes dividindo direção; mas em conversa com nossos mestres, nesse caso o Ruy Guerra, entendi que o fato estava posto e não havia pra onde correr.

– Qual foi a solução encontrada?

14- Cacau: Nossa opção foi ao invés de olhar isso como um problema olhar como uma oportunidade de crescimento. Ter uma cabeça pensante a mais para facilitar as tomadas de decisão, diluir os momentos difíceis e principalmente amplificar os bons. Foi com esse sentimento que eu e Felha nos transformamos num só coração e tocamos esse barco até o fim. Aprendi muito com isso. O cinema é uma arte coletiva. Quanto mais você abre mão da autoria, mais você é autor.

– Vocês acreditam que o cinema nacional passa a partir desse momento a olhar os realizadores de favelas e periferias com outros olhos?

15- Cadu Barcellos: Acho que um passo foi dado, não me iludo a achar que agora teremos vários filmes com o olhar de realizadores de favelas da noite pro dia. Mas acho que foi um primeiro passo para mostrar que nas favelas se sabe fazer e muito bem.

16- Cacau: Sim. Vejo isso na prática em todos os debates, entrevistas e quando ando pelas ruas. Nossa galera já produz há muito tempo. São dezenas de coletivos de cinema no Rio, São Paulo, Minas, Brasília e muitos outros estados. Na internet você pode achar centenas de obras dignas do grande público, o problema é que o mercado não comporta – hoje – toda essa massa produtiva. 5x favela vem, diante desse cenário, dar mais um empurrão e funcionar, principalmente, como uma vitrine para que mais pessoas tenham acesso a essa cinematografia.

– Vocês acham que seus projetos pessoais terão mais chances de serem aprovados a partir de agora?

17- Cadu Barcellos: Acho que estamos em um bom momento, mas não acho que nossos projetos serão aceitam se não forem bons. A qualidade está acima de qualquer coisa.

18- Cacau: Aposto todas minhas cartas nisso. É diferente um de nós chegar numa empresa com seu projeto embaixo do braço hoje e antes do filme. Tivemos muitas dificuldades para captar recursos com sete cineastas iniciantes, mas hoje muitos empresários que não acreditaram devem ter se arrependido. Digo isso não a partir de uma visão subjetiva minha, mas objetivamente porque o filme foi sucesso de crítica e já está sendo de público.

– Como vocês vão administrar as relações de vaidades diante de tanta divulgação e reconhecimento?

19- Cadu Barcellos: Ainda estou me acostumando com esse reconhecimento e em alguns momentos a “tietagem”, mais a realidade nos deixa com o pé no chão. Ainda pegamos o ônibus lotado, temos que tirar daqui pra pagar uma conta ali, colocar lá pra suprir daqui. Então acho que quanto a isso estamos bem tranqüilos.

20- Cacau: Essa equação é complexa e não se resolverá da noite pro dia. Como partimos de um processo de invisibilidade, ser reconhecido pode ser prazeroso, mas também pode trazer transtornos pelo aumento de expectativas inatingíveis ou mesmo por um afastamento de parceiros e amigos. O jeito é nos apegar a eles; os amigos que sempre nos ajudaram, nos cobrando. No lançamento do projeto “Mão na Cabeça”, da CUFA, aprendi uma bela lição com o discurso de Luis Eduardo Soares e a partir dali sempre que dou uma entrevista como esta, sempre que posto uma simples frase dita por uma personalidade em meu twitter, me pergunto o que meus amigos vão pensar ao ler aquilo. Se a resposta for que eles me admiraram por ter me tornado uma pessoa mais ética, não tenho dúvida de que estou no caminho certo. Caso contrário é melhor esquecer. Mas ao mesmo tempo não podemos perder a oportunidade de aproveitar o momento e transformá-lo numa constante. É uma faca de dois gumes.

COMENTÁRIOS:

Comentário: Boa Cacau, Cadu e demais. Boa sorte sempre! Aos \”homens de preto\”. kkk Clayton
Clayton Vidal – RJ

Comentário: \”Agora por nós mesmo\” é, pra mim, o melhor conceito que filme 5X Favela trás. Os entrevistados deixam transparecer essa necessidade de produzir uma compreensão da favela pelos próprios moradores. E mais, a partir disso, influenciar as outras representações sociais existentes. A maior conquista do filme pode ser pensada pelo sucesso de bilheteria: mostra que grande parte da sociedade brasileira quer entender essa (re)contrução da favela por seus moradores. O diálogo estará se ampliando entre as realidade sociais desiguais e, por isso, acredito no filme como um novo divisor de águas em nossa cultura nacional. Parabéns aos produtores!
Paulo Pedrassoli – PR

Comentário: Lição de perseverança, identidade, reconhecimento e atitude. Dentre outras coisas eles nos mostraram um leque de possibilidades que por vezes igoramos por nos fecharmos as condições impostas pela sociedade. Com muita qualidade e profissionalismo colocaram 5 faces das muitas que a favela tem! estou extasiada…
Yaisa Santos – RJ

Comentário: Em 1961, 5x Favela foi uma produção que reuniu cinco diretores da classe média se voltando para a favela. Agora, a diferença é que os diretores atuais são habitantes da Favela, mostrando 5 episódios diferentes, porém sem apenas o estigma conhecido de que favela é sinonimo de bandido-drogas-tiroteio. Uma visão realistica, em uma historia contada por eles mesmos, ou melhor, por nós mesmos! Parabéns a todos!
Nana – GO

Comentário: Quando comecei a ler esse entrevista,deu para perceber que eles nunca deixarão de acretidarem em si proprio, mesmo com toda dificuldade uma lição de pura perseverança.meus parabéns 5 vezes favelas…
JOSE CARLOS- CANÙ – RJ

Comentário: Tudo que li sobre até agora me fazem entender que eles falam com muita propriedade de temas como ética e educação, amizade e amor, solidariedade e tolerância, família e comunidade, sem ignorar a violência e as dificuldades cotidianas de que sofrem os moradores de comunidades e sem deixar a ternura e humor de lado. Cacau e Cadu parabéns por esse grandioso trabalho.
Raphael Faria – RJ

Comentário: Que bom ver essas ações sendo efetivadas. São esses relatos que mudam essa visão ruim de nossas favelas. Vocês mostram que queremos que a favela conte os seus desejos, suas lutas diárias e que, juntamente com os governantes, possam influenciar diretamente na proposição da sociedade justa, solidária, igualitária e constantemente sonhada.
Danillo Bitencourt – BA

Comentário: Interessante sabermos como foi gravar o filme, se, como dizem, fazer filme no Brasil é difícil, gravar um filme com a história de quem tantas vezes é esquecido.
Joana Miranda – PR

Comentário: São histórias como essa, que nos damos conta que extravasar os limites e romper barreiras é possivel. Não existe dificuldades para aqueles que acredita, que podem fazer mais. E melhor, fazem realmente. Cacau e Cadu podem acreditar, esse momento de \”tietagem\”é fruto da dedicaçao e comprometimento de vocês com a excelência. Todas as dificuldades serviram de adubo para o sucesso maravilhoso de vocês. Sigam firmes, porque ainda tem muita coisa boa pra chegar!
Maria Dinora Rodrigues – RS

Comentário: Vendo hoje tudo oque acontece no cinema nacional, podemos sentir um pouco do gosto da vitoria, pois quando leio uma entrevista de pessoas como Cacau Amaral, o qual conheco pessoalmente, e meu amigo em particular e ainda dirigindo um projeto como esse o 5X Favela, sinto um orgulho imenso, pois acredito muito nopotencial de cada um envolvido nisso e sei que irao muito mais longe, parabens 5X Favela, parabens a todos.
Wellington Galdino – RJ

Comentário: Lição de perseverança, identidade, reconhecimento e atitude. Dentre outras coisas eles nos mostraram um leque de possibilidades que por vezes igoramos por nos fecharmos as condições impostas pela sociedade. Com muita qualidade e profissionalismo colocaram 5 faces das muitas que a favela tem! estou extasiada…
Yaisa Santos – RJ

Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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