Agora nós somos os cineastas – por Marília Gonçalves

Um pai cansado de comer arroz com feijão todo dia. Um filho que quer presenteá-lo com um jantar farto. Assim começa a história de Arroz com Feijão, um dos curtas que compõem o filme 5x Favela. No curta, tensão, comédia e crítica social se misturam na saga de dois meninos em busca de R$ 5,00 para comprar um frango vivo.

Os diretores do episódio, Rodrigo Felha e Cacau Amaral, não são novatos no cinema. Rodrigo, que já foi estoquista de sapataria, e Cacau, que ainda trabalha numa refinaria, resolveram investir no cinema há cerca de 10 anos, ambos através da Central Única das Favelas (Cufa). Conheça a história desses dois cineastas que têm como plano futuro trazer o Oscar para o Brasil.

Como foi o início da relação de vocês com o cinema?
Felha: Minha entrada no cinema foi através da Cufa. Fui convidado pra carregar bolsa de um câmera, e, sem saber, eu estava fazendo o papel de assistente. Daí veio o encanto natural pelo cinema, e eu fui estudar por conta própria. Isso aconteceu há dez anos. Algum tempo depois eu assumi a função de câmera de um documentário que fez muito barulho no Brasil, que foi o Falcão: Meninos do Tráfico. Dali minha história já tinha começado sem eu saber. Foi criado o Núcleo de Audiovisual da Cufa, que eu coordenei durante 7 anos, e eu estudei na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Depois, o Cacá convidou a gente pra fazer a oficina, e nós fizemos junto com toda a galera.
Cacau: Eu também cheguei ao cinema através da Cufa. Eu tinha um grupo de rap chamado Baixada Brothers, e decidi fazer um videoclipe do grupo. Para isso, eu comecei a estudar cinema na Cufa em 2002. Foi quando conheci o Cacá, dando aula lá. Aí eu fiz um documentário, chamado Um Ano e Um Dia, e o Cacá me incentivou a inscrevê-lo em festivais. Ganhei dois prêmios nacionais e um internacional. De 2002 até 2006 eu não saí das oficinas mais. Hoje eu ainda estou lá, mas agora como professor de Roteiro.

O que vocês faziam antes de se envolver com cinema?
Cacau: Eu cantava rap, e, nessa época, era mecânico em São Cristóvão. Hoje, além de fazer cinema, eu trabalho numa refinaria em Caxias. Já trabalhava com produção nos meus shows, mesmo sem saber que eu fazia a produção. A repercussão do documentário Falcão: Meninos do Tráfico foi o que me despertou.
Felha: Na época que eu comecei a me envolver com cinema, era estoquista de loja de calçado. Nós que moramos na favela sofremos com o imediatismo – tem aquela coisa de ter que comprar as coisas pra amanhã. Minha mãe me dizia: “Menino, larga essa história de fazer cinema. Pensa no seu dinheiro, na sua carteira assinada”. Ela não tinha noção. Nem eu. Mas eu decidi apostar e deu certo.

Como foi a construção do roteiro do filme?
Cacau:
O roteiro foi construído numa oficina realizada na Cufa. Foi um processo totalmente democrático. Surgiram mais de 10 argumentos para o filme, e o Arroz com Feijão foi o mais votado. Daí o roteiro foi construído pela turma toda.
 

“Meu plano agora é ganhar o Oscar. Não consigo tirar isso da minha cabeça”
 

O que esse projeto representou para vocês?
Cacau:
Pra mim, profissionalmente, representou a possibilidade de eu agregar mais valor pro meu trabalho. Porque tanto eu quanto o Felha já fazíamos cinema antes de chegar no circuito. Eu tenho 7 curtas metragem, porém, eu estava fazendo cinema restrito ao meu meio, que era a Cufa e o Mate com Angu, cineclube em Caxias que eu toco há 8 anos. Com o 5x Favela eu pude conhecer o Luciano Vidigal, o Cadu, essa galera que já estava fazendo cinema da mesma forma que eu, mas que não trabalhava junto. O convívio que eu tenho hoje com essa galera está me fazendo aprender muito. Isso é o que eu trago de bagagem. Agora, eu acho que vou ter muito mais facilidade de formar minha equipe, apresentar meus projetos, conseguir patrocínio. Antes do 5x Favela eu só fazia cinema independente, com meu próprio dinheiro, ou com vaquinha – a pessoa que eu contratava pra fazer a fotografia do filme tinha também que pagar o salário do ator. Hoje foi agregado à minha carreira essa possibilidade de diálogo com os patrocinadores.
Felha: Acrescento só uma frase ao que o Cacau disse: Antes nós éramos uns cineastas, agora nós somos os cineastas. A gente começa a ter mais peso na balança.

Um crítico de cinema – Maurício Stycer – disse que o filme aborda certos temas com “ingenuidade” e outros com uma “leveza” que não caracteriza de fato algo produzido pelos “moradores de favela”. Como avaliam essa crítica?
Felha: Possivelmente ele não mora numa favela, então ele nunca vai saber se aquilo lá é real mesmo. Só o morador que está vendo o filme vai falar “aquilo ali é real”. A questão da ingenuidade é que estão acostumados a ver filme de tiro, de melancolia. No nosso caso, a gente coloca duas crianças. Dentro da favela existem crianças ingênuas também, então essa ingenuidade acaba entrando de forma natural. Dentro da favela, existem crianças alegres, crianças que se divertem. Eu imagino que algumas pessoas se sintam afetadas, porque nós favelados sempre estivemos na tela retratados, e hoje nós podemos estar retratando, inclusive fazendo críticas sociais. Isso às vezes dói em determinadas pessoas.
Cacau: Eu concordo com o Felha. Não sei qual é a procedência deste crítico, mas eu fico triste do cara querer catequizar uma espécie de cinema: “Se você está fazendo cinema de favela, seu cinema tem que ser de uma maneira específica”. Eu vejo isso como uma amarra. Independente da gente fazer cinema na favela ou no asfalto, esse tipo de amarra é muito ruim. Eu acho que a crítica tem que contribuir pro cinema, e não limitá-lo. Quando eu vou ao cinema como público e vejo algo que eu não esperava, fico muito feliz. Com o 5x Favela nós não temos pretensão nenhuma de sermos os únicos porta-vozes da favela. A gente fez uma abordagem e um enquadramento bem específico que é só uma visão. Independente de ser uma visão real ou ficcional, é uma visão que a gente quer imprimir também. Não necessariamente aquilo é uma experiência que a gente viveu, mas é a experiência que a gente quer apresentar pro mundo, é a forma que a gente quer aparecer pro mundo. Eu assisto filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite, e não enquadraria a favela daquela forma. Acho que a ingenuidade e a alegria do 5x Favela são muito bem vindas pro cinema brasileiro. Na minha visão, ele é um filme tenso, dramático e, sobretudo, alegre. A gente não decidiu se ia fazer um drama ou uma comédia, a gente simplesmente deixou a coisa solta.
 

“Acho que a ingenuidade e a alegria do 5x Favela são muito bem vindas pro cinema brasileiro”
 

Há uma cena no filme Arroz com Feijão em que as duas crianças da favela são assaltadas por um grupo de crianças de classe média, numa inversão de estereótipo. O que inspirou essa cena? Foi alguma experiência pessoal?
Felha:
Exatamente isso (risos). Isso não só já aconteceu comigo como com vários amigos meus que moram na Cidade de Deus. No meu caso, foi um playboy que roubou meu pé de pato na praia da Barra. Na minha infância eu presenciei muito esse tipo de coisa, situações de “esculacho”. Mas quando a gente coloca isso na tela, a classe que sempre retratou se dói, e fica surpresa. Podia ser uma cena muito mais violenta, mas a gente teve cuidado. A gente viu que a suavidade ia falar mais alto que a violência que já é comum no cinema brasileiro.
Cacau: Quando a gente estava afinando o roteiro, ficamos num conflito interno se colocava essa cena ou não. Mas a gente concluiu que tinha que colocar sim. Por que a gente ia comprar essa ideia errada de que só o pobre pode roubar o rico? É claro que os meninos que roubam no filme não precisam de 5 reais, mas eles se sentem superiores, e entendem que têm mais direito ao dinheiro do que os moleques da favela. Acho que foi isso que a gente quis dizer.
 

“imagino que algumas pessoas se sintam afetadas, porque nós favelados sempre estivemos na tela retratados, e hoje nós podemos estar retratando, inclusive fazendo críticas sociais”
 

O que esperam fazer daqui pra frente?
Cacau: Meu plano agora é ganhar o Oscar. Não consigo tirar isso da minha cabeça (risos). O Cacá nem quer que a gente fique falando sobre isso, porque vai que a gente nem é indicado! Mas todo lugar que eu vou, quero saber quem se inscreveu, pra saber se a gente tem chance ou não. A gente vai na porta do cinema e vê a sessão do 5x Favela lotada, e começa a acreditar que pode ser verdade. Se a gente não acreditar, quem é que vai? Um outro plano que tenho, a longo prazo, é fazer outro longa metragem.
Felha: Agora nós estamos fazendo uma série de quatro episódios pra TV sobre a UPP. Os programas vão trazer a visão do morador da favela, do asfalto, do policial e da mídia. Está sendo um desafio pra nós. Eu, por exemplo, estou dirigindo o episódio que fala sobre a visão do policial. Na Cidade de Deus, onde eu moro, eu já sofri constrangimento com policiais da UPP. Quanto ao Oscar, está virando um sonho na minha cabeça também. Além disso, estou com um projeto de documentário que vai abordar a homossexualidade nas favelas cariocas.

 

Cacau Amaral (à esquerda) e Rodrigo Felha, durante as filmagens de Arroz com Feijão. Foto: Divulgação 5x Favela

 Cacau Amaral (à esquerda) e Rodrigo Felha, durante as filmagens de Arroz com Feijão. Foto: Divulgação 5x Favela

Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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