Lázaro Ramos fala sobre família, projetos e o Dia da Consciência Negra

Publicado em: correiobraziliense.com.br

Gabriela de Almeida

Publicação: 20/11/2011 08:15 Atualização:
Difícil apagar da memória a impactante atuação de Lázaro Ramos em Madame Satã, filme que narra a vida de João Francisco dos Santos, transformista conhecido na noite marginal carioca da primeira metade do século 20. Esse foi só um dos papéis emblemáticos protagonizados por Lázaro. Ator e diretor, ele também escreve. Lázaro Ramos é autor de A velha sentada, livro dirigido ao público infantil, e está à frente de um projeto denominado Ler é Poder, que incentiva o hábito da leitura. Embaixador da Unicef, atuou no ano passado em uma importante campanha contra o racismo na infância, na qual diz: “O direito à proteção não tem etnia, mas a pobreza na infância tem cor. Atinge 32,9% das crianças brancas e 56% das crianças negras. Valorizar as diferenças na infância é cultivar igualdades”.

Como você enxerga o negro no universo cultural brasileiro?
Os mecanismos de produção e patrocínio precisam ficar mais atentos à questão. Acho bacana que, na dramaturgia — você vê isso no cinema e na televisão —, os personagens negros estão mais inseridos. Mas os mecanismos de patrocínio que ajudam a viabilizar projetos não estão crescendo na mesma proporção. Se você for ver, os atores negros e os personagens estão muito presentes no cinema nacional, mas quais são os cineastas negros que estão produzindo e conseguindo viabilizar seus projetos? 5x favela é um projeto muito bem-sucedido, acho que inclusive por isso. Associa o morador da favela, mas também os cineastas negros. São filmes que entretêm, que são interessantes para o público e têm algo novo para oferecer para o cinema nacional. Acho que esse é um ponto a ser trabalhado.

Existiu alguma evolução na dramaturgia nacional em relação ao negro?
Acho que sim. Sou otimista, vejo vários exemplos e uma inserção maior. A tendência é que haja mais e mais. Os produtores culturais naturalmente irão atrás disso porque o público demonstra que quer consumir isso. Notei esse fato quando fiz Da cor do pecado e Cobras e lagartos, novelas com índices enormes de audiência. Vi também em filmes como Cidade de Deus e 5x favela, que têm público relevante. Acredito que o ideal é inserir a diversidade do Brasil — ou dialogando com a realidade, ou de forma fantasiosa. A peça que dirijo (Namíbia, não!) é de uma ficção absoluta, mas é um campo aberto para uma identificação enorme. Podemos inserir a identidade na nossa produção cultural. A tevê brasileira fica muito mais rica quando ela expressa a diversidade que existe nas ruas do Brasil.

De onde surgiu a ideia de criar o Espelho?
Fui convidado pelo canal para fazer um programa diário, mas disse a eles que tinha uma ideia melhor. Havia um espetáculo do Bando de Teatro Olodum chamado Cabaré da raça, em que 16 personagens negros expressavam suas diferentes opiniões sobre os mais diversos assuntos. Sexualidade, autoestima, religião. Peguei esse espetáculo, dividi em cinco temas e fiz o que seria uma primeira temporada, o especial de um ano do canal. A audiência comprovou estar interessada no assunto. Fomos convidados a fazer um ano a mais, só que dessa vez com 26 episódios. Fizemos e já, no segundo ano, viramos a segunda maior a audiência do Canal Brasil, perdendo apenas para os filmes de pornochanchada. Acho que o sucesso significou que existe o interesse, que esse assunto está querendo ser discutido. Fomos nos libertando da fórmula e para 2012 convidamos 26 pessoas que falarão sobre a forma como a arte pode ter influenciado a vida delas. Não apenas o que elas estão produzindo, mas também o que absorvem de artístico.

Qual é a contribuição que o programa Espelho pode dar para o pensamento e a discussão da cultura brasileira?
O Canal Brasil é muito democrático e o programa é aberto para todas as pessoas. Não barro o pensamento de ninguém. Tanto é que na hora da edição eu me corto o máximo possível para o que discurso da pessoa saia inteiro. Ao longo desses anos, alguns desses programas foram fundamentais para a discussão da questão racial no país. Tenho um bom exemplo, o programa com o Ali Kamel e o Joel Zito Araújo, os dois respondendo as mesmas perguntas, cada um com um pensamento absolutamente oposto ao outro. Outra edição da qual eu me orgulho é a de que participou Celso Athayde, fundador da Cufa. Nem antes nem depois, ele foi a nenhum outro lugar. Tudo que ele falou ali de pensamento de movimento social foi muito importante. Outro emblemático foi o que convidamos uma psicanalista chamada Neusa Santos Souza, importantíssima, que, nos anos 1970, escreveu Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. A obra virou uma “bíblia” nos movimentos negros sociais. Nós a convidamos e ela falou que muito do que ela pensava na época havia mudado. Um mês depois, ela suicidou-se. De alguma maneira acredito que ela encontrou no programa um aconchego para aquilo que ela pensava para dar sua última entrevista. São programas simbólicos. Tem outros menos dramáticos, mas importantíssimos, como as entrevistas com Seu Jorge e Tom Zé.

Qual foi a importância do Bando de Teatro Olodum na sua formação?
No Bando, tive a oportunidade de experimentar vários tipos de personagens. Pude criar e, na minha formação, fiz dança, canto, interpretação. Foi minha faculdade gratuita e me ajudou no pensamento do por que eu queria ser ator. Ao longo desses 21 anos, o Bando falou muita coisa importante por meio do teatro e deixará um legado importantíssimo para a história do teatro brasileiro.

No site do filme Amanhã nunca mais, você fala sobre um Brasil anestesiado. Você sente que o país está assim?
Não, acho que esse personagem é anestesiado, é simbólico. A universalidade dele está nisso, todo mundo pode se identificar. Dizem “Poxa me identifiquei porque escolhi a profissão errada” ou “Não tô feliz na relação com a minha esposa”. O filme fala de um homem que não consegue dizer não e que vai violentando os seus desejos em nome dos outros. É uma comédia tensa.

Você se considera um exemplo?
Um exemplo não. Dizendo assim parece que fui absolutamente certo, mas para algumas pessoas meu comportamento pode não ter sido o mais adequado. Me sinto uma referência. Sei da importância que nomes como Tom Zé e Milton Gonçalves tiveram na minha vida. Toda vez que alguém vira para mim e fala “Poxa me identifiquei com alguma coisa que você falou” ou “Parabéns por determinado trabalho”, me sinto feliz porque sei da importância que isso pode ter para uma pessoa. Mas o caminho é longo, ainda estou aprendendo muito.

O que você pensa sobre o Dia da Consciência Negra?
Eu acho que o importante é que um dia essa data não precise existir. Hoje em dia ela é absolutamente necessária para a gente lembrar que a situação do negro ainda não é a melhor. Infelizmente, ainda somos maioria nos presídios, favelas e manicômios e essa data é importante porque diz assim: “Vamos prestar atenção no que está acontecendo no país”. O ideal é que daqui a alguns anos a gente tenha essa consciência todos os dias, que não exista uma data para lembrar e que, na verdade, não haja mais essa desigualdade tão grande no país.

Alguma coisa mudou no seu discurso depois que você se tornou pai?
Acho que a preocupação continua a mesma. Se o mundo estiver melhor para todo mundo, então estará melhor para o meu filho. Continuo tendo os mesmos desejos de quando entrei no Bando de Teatro Olodum e de quando me tornei embaixador da Unicef.

Publicado em: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2011/11/20/interna_diversao_arte,279075/lazaro-ramos-fala-sobre-familia-projetos-e-o-dia-da-consciencia-negra.shtml

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Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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