À meia-noite morrerei três vezes

8º Tratamento

Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2010

1. QUARTO – INT – NOITE

Tela escura: Ouvem-se passos de pessoas descendo escadas. Barulho de porta se abrindo. Em seguida ouve-se uma cadeira sendo arrastada, porta sendo fechada e maçaneta trancada. O som dos passos vai desaparecendo ao subir as escadas.

VOZ OFF

(DISFORME E GROSSA)

“Três horas, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos”.

Um porão escuro como um cofre de banco antigo. Júlio, 20 anos, calça jeans, blusa preta, all star, está sentado na cadeira, ele está com um capuz preto cobrindo o rosto e com as mãos amarradas.

Ao ouvir a voz, Júlio movimenta a cabeça. A respiração vai ficando mais forte.

Barulho de cadeira se movendo. Júlio move todo o corpo com força.

JÚLIO

Quem é? Por que isso Cara? O quê que tá acontecendo? Fala comigo! Que porra é essa? Por que vocês estão fazendo isso comigo? Vamos resolver isso! Quê que tá acontecendo?

O som da movimentação de Júlio vai ficando mais forte.

Ele fricciona as mãos tentando fazer a corda se soltar.

Sua respiração vai ficando mais ofegante. Ele move as mãos com força tentando soltá-las até que consegue. Ouve-se o som de Júlio tomando ar.

Agora ele está sem o capuz.

Em seguida, anda pelo porão tateando a parede para achar o interruptor.

Júlio acende a luz.

Tela Branca: Um grande clarão. Como se estivesse enxergando pela primeira vez a luz.

Júlio observa todo o local.

As portas do armário estão abertas.

O teto tem fios soltos.

Ele está com uma fisionomia cansada, rosto suado, cabelos molhados.

Ele coça os olhos,

esfrega os braços.

A câmera faz um traveling in até um plano fechado de Júlio

Encosta-se à porta e deixa o corpo cair até ficar sentado, aproxima as pernas do tórax envolvendo-as com os braços, abaixa a cabeça e chora.

2. SALA – INT – NOITE

Pessoas in loco

3. QUARTO – INT – NOITE

Júlio está sentado na mesma posição. Ele ouve passos descendo as escadas e se

levanta assustado. Olha meio de rabo de olho,

pega o capuz no chão, apaga a luz, se senta, coloca o capuz e volta para a mesma posição, comas mãos para trás.

A porta se abre. O ritmo e a intensidade da respiração de Júlio aumentam. A porta se fecha e os passos diminuem aos poucos.

Júlio se levanta.

Acende a luz novamente.

Ele anda afoito de um lado para o outro.

JÚLIO

(PENSANDO)

Isso é um pesadelo, é um pesadelo, uma hora eu vou acordar. É uma bad trip. Aquela parada que o Adriano me deu tava malhada. Filho-da-mãe. Caralho! Três horas. Os Caras falaram três horas. Que porra eles estão querendo comigo?

Júlio começa a abrir as várias gavetas que tem no porão. Ele abre uma gaveta e

vê uma faca.

Enfia a mão, mas ouve um barulho de rato. Tira a mão rapidamente.

JÚLIO

Merda! Merda!

Olha para cima,

sobe na cadeira, tira um fio pendurado no teto e com ele puxa a faca de dentro da gaveta. Pega a faca e começa a tentar abrir a porta. Não consegue e lança a faca no chão.

Em seguida, começa a andar de quatro pelo porão, tentando achar a faca novamente. Não encontra. Senta-se no chão e coloca as mãos no rosto.

JÚLIO

(PENSANDO)

Aqueles filhos-da-puta não podem me matar. Eles não vão ter coragem de me matar.

Júlio vê todo seu passado numa fração de segundos.

INSERT

Júlio jantando com sua mãe e pai.

Uma banda se apresentando

Imagem de Jesus crucificado

Professora ensinando.

Subjetiva de dentro de um carro veloz.

Júlio brinda com seus amigos.

Túmulos.

Júlio andando de skate.

Leito de hospital.

Júlio abraçado com Mariana na escada.

Túmulos.

Júlio lendo.

Subjetiva de dentro de um carro veloz.

QUARTO – INT – NOITE

Júlio anda pelo porão, gesticulando. Ele olha pro chão

e vê um rato.

Continua andando. Em seguida outros ratos aparecem e Júlio fica encostado na parede.

Júlio

Sai daqui seus bichos escrotos. Vocês não vão me comer. Eu não vou morrer aqui nesse lugar. Sai daqui. Sai daqui porra. Sai daqui bicho escroto.

Os ratos começam a avançar na

direção de Júlio.

Tela Escura.

4. SALA – INT – NOITE

Pessoas in loco

5. QUARTO – INT – NOITE

Júlio está deitado no chão. Barulhos de passos se aproximam da porta. Ele levanta correndo, apaga a luz e volta para a posição de refém.

A porta se abre.

JÚLIO

(OFF)

Me deixa sair daqui Cara. Me diz o que vocês querem. Eu dou porra. Não faz nada comigo não Cara. Me tira daqui porra.

Som da porta se fechando

e em seguida som de líquido derramando.

Júlio está sentado na cadeira, com as pernas mijadas.

Ele tira o capuz do rosto. Seu rosto está suado. Júlio acende a luz novamente.

Júlio começa a socar a porta. Barulhos de gritos vão invadindo o porão. Júlio tenta tapar os ouvidos pra não escutar.

JÚLIO

Eu vou foder com esses Caras. Vou foder com eles. Quando eu sair daqui eu vou matar esses Caras. Se eles forem muitos eu espero eles dormirem e mato. Mato um de cada vez. Mato e mato e mato.

Enquanto fala, Júlio esfaqueia a cadeira com a faca. Júlio se cansa e dorme

6. SALA – INTERIOR – NOITE

Júlio, Flávio, Amanda, Mariana e Joana conversam em uma mesa.

7. QUARTO – INT – NOITE

Júlio está deitado com a faca na mão, na mesma posição anterior. Uma gaveta está aberta em frente a ele. Ele avista um relógio.

Insert do relógio dentro da gaveta.

Júlio se levanta depressa para pegar o relógio. Ele pega o relógio, mas o relógio não funciona. Ele gira o botão, dá porrada e nada.

O relógio está parado em meia-noite.

JÚLIO

(PENSA)

Meia noite. Eu saí de casa nove horas. Meia-noite é a hora que eu vou virar abóbora.

Júlio começa a rir. Ele ri histericamente. Dando gargalhadas altas e repetindo “meia-noite eu vou virar abóbora”. Júlio olha para parede.

Ele vê um relógio tipo “Cuco”. O relógio marca 2 minutos para meia-noite. Júlio começa a se desesperar,

ele chora olhando para o relógio.

Insert dos ponteiros do relógio transcorrendo.

Júlio fica parado suando muito e olhando para os segundos passando.

O relógio marca meia-noite.

O porão é invadido por sons de sinos e badalas de relógio.

O Passarinho entra e sai fazendo o som de “cuco”.

Júlio anda pelo porão gritando.

Ele sobe na cadeira e

puxa mais fios do canduíte. Os fios não saem mais, estão presos ao teto.

Ele enrola o fio no pescoço.

Tela Escura: Os sons de relógios páram. Som da respiração de Júlio. O som vai ficando mais ofegante até que pára.

8. CORREDOR – INT – DIA

Júlio está caminhando por um corredor branco ao lado de Mariana. Ele tem os braços e joelhos, como um zumbi e anda lentamente. Mariana anda normalmente, mas na mesma velocidade que ele, com a mão em seu ombro, como que se o vigiasse.

Tela Escura: Barulho de um corpo caindo.

9. QUARTO – INT – NOITE

Júlio está caído no chão na mesma posição, com a faca na mão. Seu corpo está imóvel.

Ouve-se o barulho de passos se aproximando.

Júlio se descontrola, começa a fechar todas as gavetas. Os passos cessam.

Júlio olha atônito para a maçaneta da porta.

A maçaneta se move.

Júlio levanta a cadeira com as mãos, fazendo pose de quem quer se proteger.

VOZ OFF

(DISFORME)

Sobe aqui. Precisamos de você.

Júlio coloca a cadeira no chão e se senta nela fazendo cara de alívio.

Ele caminha até a porta, coloca o ouvido na porta como se tentando ouvir alguma coisa. Não há barulho algum. Ele anda em direção ao centro da sala

JÚLIO

Cara. Que vontade de dar mais um téco.

Júlio procura pelos bolsos, mas não tem nada. Se senta,

coloca uma arma na cabeça e dá um tiro.

Tela escura.

Silêncio. Entra som da trilha fúnebre.

Ouve-se a porta se abrir. Pára trilha, Júlio olha para a direção da porta de repente.

MARIANA

Ué. Você ainda está aí?

JÚLIO

Me tira daqui. Eu não fiz nada. O que esses caras querem comigo?

Ela sumiu.

Ele enxerga uma imagem embaçada.

Todo o porão está escuro, surge um globo com luzes coloridas (desses de boates) no teto. Uma música eletrônica começa a tocar.

Mariana, sexy, vestido preto colado no corpo e botas pretas, começa a dançar para Júlio.

Ele está sentado em uma cadeira. Mariana faz uma dança sexy, ela levanta uma das pernas e apóia na cadeira onde Júlio está sentado, ela abre o zíper da bota e tira um papelote de cocaína.

Ela dá um peteleco no sacolé e entrega o papelote nas mãos de Júlio.

SALA – INTERIOR – NOITE
Júlio põe a cocaína numa seda, aperta e fuma.

QUARTO – INT – NOITE
Os dois estão dançando, Júlio tenta beijar Mariana,

mas ela sempre se esquiva.

Eles continuam dançando.

Ela dança olhando para cima, vai jogando o corpo para trás.

Júlio também começa a dançar imitando-a, olha para cima e

depois joga o corpo para trás. O som da música é cortado.

Júlio olha para frente, Mariana desapareceu. O barulho de relógio

“tic-tac” toma conta do local.

Júlio fica sentado no chão com as mãos na orelha e balançando a cabeça.

Ele olha para a porta vazia, turva.

Fixa o olhar.

A porta começa a sair de foco até que some. Mariana aparece de repente, faz sinal para ele seguí-la e sai de novo, bruscamente.

O som dos relógios aumenta. Júlio começa a gritar tentando abafar o barulho dos relógios. Júlio deita no chão em posição fetal.

Mariana abre a porta, vê Júlio deitado no chão. Ela e os amigos se aproximam. Ela cutuca Júlio com os pés.

MARIANA

Júlio levanta! Tá todo mundo lá em cima te procurando. São meia noite. Meu pai já vai chegar.

Júlio nem se move.

Ela fica de cócoras e passa a mão em sua cabeça.

Júlio se vira olhando para ela, arregalando os olhos. Olha para os outros, um a um.

FLÁVIO

(VOZ DISFORME)

Bora rapaz! Vamos tomar um banho.

Júlio se levanta do chão, meio zonzo. Os outros o ajudam. Ele sai do porão.

Clareamento.

FIM.

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