Tava tão preocupado
Não sabia o que fazer
Como chegaria
Falaria com você
…
O que que a gente faz
Nessa hora
O momento
Tem que ser agora
Tava tão preocupado
Não sabia o que fazer
Como chegaria
Falaria com você
…
O que que a gente faz
Nessa hora
O momento
Tem que ser agora
Maria tinha medo
De Guaiamum
Que outro dia
Até pisou em um
O Guaiamum
Andava meio de lado
Ele estava apaixonado
Procurando por Maria
Mas só que ela
Não estava apaixonada
Estava meio assustada
Apavorada nesse dia
O Guaiamum
Estava muito machucado
Coração dilacerado
Magoado com Maria
Mas só que ela
Teve pena do galã
Comentou com sua irmã
Que já se arrependia
João… pra que tanta exploração
16 horas por dia na boleia de um caminhão
Diferente dos africanos quando chegaram aqui
Recebeu incentivos para investir
Empresa de transporte, empresa de comida
Mas nada deu certo em sua vida
Domina os sete mares na internet
Navega os oceanos se esquivando dos golpistas
Whatsapp, YouTube, Facebook, telegran
TikTok, Spotify, Discord, instagran
Acredita que a culpa de todo o seu fracasso
É do nordestino que drena seu salário
Não tem olhos suficientes que possam enxergar
Que seus recursos vazam em tantos juros pra pagar
Os sites de apostas, dívidas e muito mais
Credores aplicando em paraísos fiscais
Não pode comprar uma casa porque tá pagando dívida
Não pode comprar um carro porque tá pagando dívida
Não pode mudar de vida porque tá pagando dívida
Dívida, dívida, dívida, dívida
Por que será que um cara que não tem sangue nobre
Votaria em alguém que o deixaria ainda mais pobre
Segue libertários na rede de golpista
Com pele de cordeiro e alma capitalista
Presidentes antirracistas foram derrubados
A inclusão foi reprimida por golpes de Estado
O racismo racial da colônia deixa marcas
Combatido por Getúlio Vargas
A partir dessa condição, não poderiam mais
ofender publicamente com questões raciais
Até hoje perseguido com a voz amordaçada
Liga na TV e assiste um cara com o olho claro
Chingando uma mulher aqui um indígena ali
Fazendo monte de piada pra racista rir
Ofendendo toda menoria que pode
Se sente representado e elege esse debiloide
Não tem um sindicato para lhe orientar
Ou uma emissora pública que mostre o outro lado
Não usa o salário pra comprar coisa útil
Ao contrário, usa para pagar juros
Pra quem trafega em paraísos fiscais
Sem deixar um centavo pra quem realmente faz
Se o rico precisa de uma geladeira
Ele paga apenas por uma geladeira
Mas se o pobre precisa de uma geladeira
Ele paga por tês geladeiras
Uma ele leva pra casa pra usar
Mas continua pagando o juro infinito
Diante dessa confusão o pobre de direita padece
E fica perguntando por que isso acontece
Uma comunicação invertida que foi criada
pela rede social e a mídia privatizada
RICARDO… sabe pra onde vai
Moleque maloqueiro, filho pardo sem pai
De dia fica em casa cuidando da irmã
À noite perambula nas esquinas do slam
Aprendeu tudo na rua andando pela cidade
Muito mais do que na universidade
Lugar imponente e assustador
Onde vivia de canto discriminado por Playboy
Mesmo com um trabalho realizado com maestria
Cultuado e premiado pela reitoriaMesmo com um trabalho realizado com maestria
Cultuado e premiado pela reitoria
Um jovem de talento lutador de verdade
Carrega nas costas toda arte de uma universidade
Divulgando que na rua tem coisa muito legal
Batalha de rima, slam, sarau
No caminho da escola, no caminho do trabalho
No caminho pra slam sempre um campo minado
Questão racial, na época colonial
Questão cordial, travestia o mesmo mal
Questão cultural, resgate do original
Racismo, racismo, racismo
Se existe até hoje, em grandes proporções
é porque ele foi um projeto antigo
Desde o dia que um grupo de vacilão
Se reuniu pra deliberar que a melhor opção
Seria sequestrar o africano transportar em tumbeiro
Torturar no cativeiro
Aliás, ainda faz até os dias atuais
Quando patrocina a opressão de policiais
Se você acha que isso não passa de uma invenção
Se concentre em apenas uma reflexão
Quem veio morar no Brasil e recebeu terra
Quem veio sequestrado dentro da caravela
O preconceito de quem mora no Sul e sudeste
contra quem mora na região Nordeste
Acontece por uma questão de negritude
E nunca por uma questão de latitude
Diante de tanta violência o povo resiste
Insiste em levantar sua voz
Gritando que a escravidão moderna deveria acabar
Que cada rico deveria pagar
Por que você acha que eles morrem de medo
Do candomblé, da capoeira, do samba enredo
Do break, do grafite e do rap
Inspiração da molecada pra fazer o trap
Cada uma dessas manifestações
repercute a ideia de reparações
A pacificação começa pelo genocídio
A base de tiro no menos favorecido
Diante da violência estatal
a resistência multiplica em cada sarau
Onde os jovens se encontram para resistir
Discutir. Namorar. E se divertir.
MARIA… bonita trabalhadeira
Carteira assinada como cozinheira
Na feira na primeira hora do dia
Escolhendo leguminosa pra agradar a chefia
Se tinha gente com fome ficava apressada
Mas se perdesse o trem chegava atrasava
7 horas o café já estava servido
Meio-dia sempre era o horário de pico
3 horas da tarde cozinha pra lavar
Pernas de cadeiras voltadas pro ar
Alegria no rosto de um cara sangue bom
Nem parecia um patrão
5 horas da tarde poderia ir pra casa
Mas prefere ficar pra dar dar a última olhada
7 horas da noite vai embora cansada
Mas é só o começo da segunda jornada
A classe a. Em sua ilha particular.
A classe b no mercado pra explorar você.
A classe c no cartão e cheque especial
A classe d apostando o benefício social
Em casa preocupada com o filho abre a cortina
Testemunha um bacolejo logo ali na esquina
Se eles não solucionam os crimes da cidade
Afinal de contas o que é que eles fazem
Se juntasse dinheiro sairia daqui
Mas com salário pequeno e dívidas pra pagar
Bem sabe que nunca poderia se aposentar
Pros credores poderem morar num bairro legal
Sempre que alguém reclamava dessa exploração
Maria aliviava defedendo o patrão
Pagava hora extra no final do dia.
Adorado e cultuado por Maria
Das duas uma achava a coisa certa
Se não fosse por ele estaria na merda
Não vê que esse cara lucra com seu trabalho
Não investe o lucro em máquinas ou salário
Cansada de promessas e regra mirabolante
Trabalhar como chefe e receber como ajudante
Piada sobre sua roupa sobre seu cabelo
Aumentos de salário que nunca aconteceram
Trabalhou pra ganhar, mas não pôde gastar
Porque tem um monte de dívida pra pagar
Não aguentava mais tamanha exploração
Pela primeira vez encarou o patrão
Uma guerrilheira na batalha do dia a dia
Sobrenome de patente maria
Toda vez que ela pensava em reclamar
O chefe manipulava, mandava pro seu lugar
Como poderia um salário atrasado
Desencadear a era do braço cruzado
Finalmente o patrão compreendeu onde que é
Lugar da mulher
Racismo racial
Racismo cordial
Ilegal, imoral
E estrutural
“A Justiça do Trabalho condenou a TV Globo a pagar uma indenização de R$ 500 mil à atriz Roberta Rodrigues”
a Unicamp concebeu o “título de Doutor Honoris Causa ao grupo Racionais MC’s em reconhecimento à sua relevância como intelectuais públicos e a sua atuação na luta contra o racismo e as violências sociais estruturais no Brasil”
O pobre acorda cedo
Vai direto pro buzão
O rico boladão
Se tem pobre no avião
O rico acorda tarde
E espera o café
O pobre sai voado
Nem despede da mulher
O rico almoça
proteína balanceada
O pobre quando come
É marmita requentada
O rico no teatro
Recital de poesia
O pobre dorme cedo
Pra ralar no outro dia
Pobre na direita, rico na esquerda
Ao longo desse ano tanta coisa à registrar
E tão poucas linhas pra rimar
Logo no início o aniversário do 8 de janeiro
O dia que os pela tentaram mais um golpe
Continuaram tentando regras mirabolantes
Bradaram um argumento nobre só pra variar
Mas o que fizeram, na verdade, foi embarrerar
Atacar a segurança alimentar
Eles têm raiva de quem ajuda o pobre
Perseguição contra o Padre Júlio Lancelotti
Dos ditos defensores dos bons e velhos costumes
De garantir seus próprios privilégios
Esses caras não conseguem impedir as pessoas
De se organizar pra mandar um papo reto
Tentam legislar porque querem usurpar
A capacidade do povo de transferir afeto
Quem disse que o hip hop estava morto
Que havia sido consumido pelo trap
Cuidado pra não se enganar com senso comum
Já ouviu falar de Maria Esmeralda
Um melodrama, um rap, uma história
Que parada é essa? Se liga mano
Levantou o hip hop desse ano
No cinema… suspeito pra falar
Ainda estou aqui. Veio pra multiplicar
Alimentar… a discussão da punição
Daqueles que praticaram tanta perseguição
A ficção também pode ter essa função
Estética perfeita, técnica perfeita
Política… poderia melhorar…
Mas será que vale a pena tentar melhorar?
Já que não tirou o brilho e tá aí pra somar
E aquela situação em 24 de outubro
Engarrafado na Avenida Brasil
Polícia dando tiro pra cima de bandido
Bandido dando tiro pra cima de polícia
O trabalhador ali no meio…
Quem é que sabe de onde o tiro veio
Deitado no assoalho do buzão…
Saindo pela janela, rastejando pelo chão
Querendo se proteger, mas se proteger de quê?
Pessoas deitadas por centenas de metros
Tentando se esconder na mureta de concreto
Pra fechar, só lembrar de uma menininha ali do lado
A maior medalhista de todos os tempos
Sem alongar esse papo de megaeventos
Mas não poderia faltar uma homenagem
A essas mulheres negras que trouxeram
medahas de ouro ao Brasil. Aliás…
Só pra reforçar… 100% dessas medalhas
Foram trazidas por mulheres… Aí…
Ana Patrícia, Duda, Bia, Rebeca…
E todas essas Guerreiras do Brasil
…
Novembro, pra fechar com chave de ouro
Prenderam um, dois, três, depois prenderam outro
Soldado, cabo, sargento, sub tenente, aspirante
Tenente, Capitão, major, coronel, general
O golpe acoado, foi na gringa recorrer a quem?
O Pato vai querer ajudar alguém?
Dezembro… Foi mais um general…
Qual seria o presente de natal?
Não quero mais saber
De ficar sem você
Quero matar o tempo
Pra te conhecer
Agora ser, ser
E não mais estar
Estava andando de bicicleta como todo domingo
Vi um monte de carros estacionados
Normalmente não tinha nenhum carro aqui
Me aproximei para ver de que se tratava
Tinha um monte de caras descendo a ladeira perto da minha casa
Eram os “Loucos por Rolimâ”
Seus carrinhos tinham quatro rodas
Os carrinhos do meu bairro tinham três rodas
Uma na frente e duas atrás
No bairro Centenário
Nos poucos morros que foram asfaltados
Era muito difícil arrumar uma roda de bilha
No ferro velho
No lixão
Desengripando com querosene
Uma tábua de trinta
O truck de perna de três
O leme de caibro
Tinha uns carrinhos com freio
Mas a maioria era sem freio
Só parava quando o morro acabava
A molecada não queria saber de outra vida
Se não fosse tempo de pipa
Bola de gude ou peão
Era chegar da escola e pegar o patinete
Descer de trenzinho
Um patinete atrás do outro
Ou então apostar corrida
Se caísse era peito no asfalto
Chegava em casa em carne viva
Ainda ficava de castigo
Essa era nossa vida
Descendo o morro de patinete