João

João… pra que tanta exploração 

16 horas por dia na boleia de um caminhão

Diferente dos africanos quando chegaram aqui

Recebeu incentivos para investir

Empresa de transporte, empresa de comida

Mas nada deu certo em sua vida

Domina os sete mares na internet 

Navega os oceanos se esquivando dos golpistas

Whatsapp, YouTube, Facebook, telegran

TikTok, Spotify, Discord, instagran

Acredita que a culpa de todo o seu fracasso

É do nordestino que drena seu salário

Não tem olhos suficientes que possam enxergar

Que seus recursos vazam em tantos juros pra pagar

Os sites de apostas, dívidas e muito mais

Credores aplicando em paraísos fiscais

Não pode comprar uma casa porque tá pagando dívida

Não pode comprar um carro porque tá pagando dívida

Não pode mudar de vida porque tá pagando dívida

Dívida, dívida, dívida, dívida

Por que será que um cara que não tem sangue nobre

Votaria em alguém que o deixaria ainda mais pobre

Segue libertários na rede de golpista

Com pele de cordeiro e alma capitalista

Presidentes antirracistas foram derrubados

A inclusão foi reprimida por golpes de Estado

O racismo racial da colônia deixa marcas

Combatido por Getúlio Vargas

A partir dessa condição, não poderiam mais 

ofender publicamente com questões raciais

Até hoje perseguido com a voz amordaçada

Liga na TV e assiste um cara com o olho claro

Chingando uma mulher aqui um indígena ali

Fazendo monte de piada pra racista rir

Ofendendo toda menoria que pode

Se sente representado e elege esse debiloide

Não tem um sindicato para lhe orientar

Ou uma emissora pública que mostre o outro lado

Não usa o salário pra comprar coisa útil

Ao contrário, usa para pagar juros

Pra quem trafega em paraísos fiscais 

Sem deixar um centavo pra quem realmente faz

Se o rico precisa de uma geladeira

Ele paga apenas por uma geladeira

Mas se o pobre precisa de uma geladeira

Ele paga por tês geladeiras

Uma ele leva pra casa pra usar

Mas continua pagando o juro infinito

Diante dessa confusão o pobre de direita padece

E fica perguntando por que isso acontece

Uma comunicação invertida que foi criada 

pela rede social e a mídia privatizada

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Ricardo

RICARDO… sabe pra onde vai

Moleque maloqueiro, filho pardo sem pai

De dia fica em casa cuidando da irmã 

À noite perambula nas esquinas do slam

Aprendeu tudo na rua andando pela cidade 

Muito mais do que na universidade

Lugar imponente e assustador 

Onde vivia de canto discriminado por Playboy

Mesmo com um trabalho realizado com maestria 

Cultuado e premiado pela reitoriaMesmo com um trabalho realizado com maestria 

Cultuado e premiado pela reitoria

Um jovem de talento lutador de verdade 

Carrega nas costas toda arte de uma universidade

Divulgando que na rua tem coisa muito legal

Batalha de rima, slam, sarau

No caminho da escola, no caminho do trabalho 

No caminho pra slam sempre um campo minado

Questão racial, na época colonial

Questão cordial, travestia o mesmo mal

Questão cultural, resgate do original

Racismo, racismo, racismo

Se existe até hoje, em grandes proporções

é porque ele foi um projeto antigo

Desde o dia que um grupo de vacilão

Se reuniu pra deliberar que a melhor opção

Seria sequestrar o africano transportar em tumbeiro 

Torturar no cativeiro

Aliás, ainda faz até os dias atuais 

Quando patrocina a opressão de policiais

Se você acha que isso não passa de uma invenção

Se concentre em apenas uma reflexão

Quem veio morar no Brasil e recebeu terra

Quem veio sequestrado dentro da caravela

O preconceito de quem mora no Sul e sudeste 

contra quem mora na região Nordeste

Acontece por uma questão de negritude

E nunca por uma questão de latitude

Diante de tanta violência o povo resiste 

Insiste em levantar sua voz

Gritando que a escravidão moderna deveria acabar 

Que cada rico deveria pagar

Por que você acha que eles morrem de medo

Do candomblé, da capoeira, do samba enredo

Do break, do grafite e do rap

Inspiração da molecada pra fazer o trap

Cada uma dessas manifestações 

repercute a ideia de reparações

A pacificação começa pelo genocídio 

A base de tiro no menos favorecido

Diante da violência estatal 

a resistência multiplica em cada sarau

Onde os jovens se encontram para resistir 

Discutir. Namorar. E se divertir.

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Maria (bonita)

MARIA… bonita trabalhadeira 

Carteira assinada como cozinheira

Na feira na primeira hora do dia

Escolhendo leguminosa pra agradar a chefia

Se tinha gente com fome ficava apressada 

Mas se perdesse o trem chegava atrasava

7 horas o café já estava servido

Meio-dia sempre era o horário de pico

3 horas da tarde cozinha pra lavar 

Pernas de cadeiras voltadas pro ar

Alegria no rosto de um cara sangue bom

Nem parecia um patrão

5 horas da tarde poderia ir pra casa

Mas prefere ficar pra dar dar a última olhada

7 horas da noite vai embora cansada

Mas é só o começo da segunda jornada

A classe a. Em sua ilha particular. 

A classe b no mercado pra explorar você.

A classe c no cartão e cheque especial 

A classe d apostando o benefício social

Em casa preocupada com o filho abre a cortina

Testemunha um bacolejo logo ali na esquina

Se eles não solucionam os crimes da cidade

Afinal de contas o que é que eles fazem

Se juntasse dinheiro sairia daqui 

Mas com salário pequeno e dívidas pra pagar

Bem sabe que nunca poderia se aposentar 

Pros credores poderem morar num bairro legal

Sempre que alguém reclamava dessa exploração

Maria aliviava defedendo o patrão

Pagava hora extra no final do dia. 

Adorado e cultuado por Maria

Das duas uma achava a coisa certa

Se não fosse por ele estaria na merda

Não vê que esse cara lucra com seu trabalho 

Não investe o lucro em máquinas ou salário

Cansada de promessas e regra mirabolante 

Trabalhar como chefe e receber como ajudante

Piada sobre sua roupa sobre seu cabelo

Aumentos de salário que nunca aconteceram

Trabalhou pra ganhar, mas não pôde gastar

Porque tem um monte de dívida pra pagar

Não aguentava mais tamanha exploração

Pela primeira vez encarou o patrão

Uma guerrilheira na batalha do dia a dia

Sobrenome de patente maria

Toda vez que ela pensava em reclamar

O chefe manipulava, mandava pro seu lugar

Como poderia um salário atrasado 

Desencadear a era do braço cruzado

Finalmente o patrão compreendeu onde que é 

Lugar da mulher

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Pobre de direita

O pobre acorda cedo

Vai direto pro buzão

O rico boladão

Se tem pobre no avião 

O rico acorda tarde

E espera o café 

O pobre sai voado

Nem despede da mulher

O rico almoça 

proteína balanceada

O pobre quando come

É marmita requentada 

O rico no teatro

Recital de poesia

O pobre dorme cedo

Pra ralar no outro dia

Pobre na direita, rico na esquerda

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Material bruto da letra Ricardo

  1. passando nas anotações 
  2. pra se inspirar
  3. Tantas recordações 
  4. Já dá pra começar 
  5. O tema é um disco de rap
  6. Que a gente fez
  7. Lá pros idos
  8. De 2003
  9. O tempo passa 
  10. E não dá pra acreditar
  11. Como essa assunto
  12. Pode ser tão atual
  13. Dizem que as coisas
  14. Acontecem em ciclos
  15. Ou será
  16. Que pode ser estrutural
  17. Voltamos em 2003
  18. Pra falar de agora
  19. Mais uma vez
  20. O tempo é uma escola
  21. Quem sabe voltando mais um pouco
  22. Podemos compreender
  23. Quem sabe 1500
  24. Tá bom pra você
  25. Assassinatos, sequestros
  26. Um povo dominado
  27. Violência, estupro
  28. De futuro marcado
  29. Legisladores justificando
  30. Tráfico negreiro
  31. Amontado
  32. Em tumbeiro
  1. A Europa achava o tráfico
  2. Humano imoral
  3. Mas bateu palmas
  4. Para Portugal
  5. Criaram leis
  6. Uma, duas, três
  7. Criaram muito mais leis
  8. Quatro, cinco, seis
  9. Não pararam por aí
  10. Outra vez outra vez
  11. Maquiaram a situação
  12. Dos escravizados
  13. Mas todas essas leis
  14. Não foram suficientes
  15. Pois só eram aplicadas
  16. Quando tinham interesse
  17. Os saques
  18. A negação da cultura
  19. Sustentados
  20. Pela força militar
  21. A guerra conta Palmares
  22. Não foi diferente
  23. Dinheiro para pela gente
  24. Pra matar a própria gente
  25. Diante
  26. Da violência estatal
  27. Surgiram novas maneiras
  28. De criar resistência
  29. O candomblé
  30. A capoeira
  31. O samba
  32. E depois o hip hop
  1. Todas essas e tantas outras
  2. Manifestações
  3. Repercutem ideias 
  4. De reparações
  5. A mitologia
  6. Da escravidão benevolente
  7. Foi desmontada
  8. Desde o quilombo ao hip hop
  9. Se o racismo
  10. Existe até hoje me grandes proporções
  11. E porque foi
  12. Um projeto antigo
  13. Que exigem ações
  14. Em iguais proporções
  15. Que culminem 
  16. Em reparações
  17. Essas leis nunca foram
  18. Suficientes
  19. Para garantir igualdade
  20. Se faz necessário
  21. O empenho na desconstrução
  22. Dessa estrutura
  23. Secular de dominação
  24. Mostrar como a resistência
  25. Se reinventou
  26. Desde os navios negreiros
  27. Até a luta contemporânea
  28. De Racionais MCs
  29. Que me inspiraram
  30. E ainda inspiram novas gerações
  31. No enfrentamento
  32. Contra o racismo

Racismo racial

Racismo cordial

Ilegal, imoral

E estrutural

“A Justiça do Trabalho condenou a TV Globo a pagar uma indenização de R$ 500 mil à atriz Roberta Rodrigues”

a Unicamp concebeu o “título de Doutor Honoris Causa ao grupo Racionais MC’s em reconhecimento à sua relevância como intelectuais públicos e a sua atuação na luta contra o racismo e as violências sociais estruturais no Brasil”

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Retrospectiva 2024

Ao longo desse ano tanta coisa à registrar

E tão poucas linhas pra rimar

Logo no início o aniversário do 8 de janeiro

O dia que os pela tentaram mais um golpe

Continuaram tentando regras mirabolantes

Bradaram um argumento nobre só pra variar

Mas o que fizeram, na verdade, foi embarrerar

Atacar a segurança alimentar

Eles têm raiva de quem ajuda o pobre

Perseguição contra o Padre Júlio Lancelotti

Dos ditos defensores dos bons e velhos costumes

De garantir seus próprios privilégios

Esses caras não conseguem impedir as pessoas

De se organizar pra mandar um papo reto

Tentam legislar porque querem usurpar

A capacidade do povo de transferir afeto

Quem disse que o hip hop estava morto

Que havia sido consumido pelo trap

Cuidado pra não se enganar com senso comum

Já ouviu falar de Maria Esmeralda

Um melodrama, um rap, uma história

Que parada é essa? Se liga mano

Levantou o hip hop desse ano

No cinema… suspeito pra falar

Ainda estou aqui. Veio pra multiplicar

Alimentar… a discussão da punição

Daqueles que praticaram tanta perseguição

A ficção também pode ter essa função

Estética perfeita, técnica perfeita

Política… poderia melhorar…

Mas será que vale a pena tentar melhorar?

Já que não tirou o brilho e tá aí pra somar

E aquela situação em 24 de outubro

Engarrafado na Avenida Brasil

Polícia dando tiro pra cima de bandido

Bandido dando tiro pra cima de polícia

O trabalhador ali no meio…

Quem é que sabe de onde o tiro veio

Deitado no assoalho do buzão…

Saindo pela janela, rastejando pelo chão

Querendo se proteger, mas se proteger de quê?

Pessoas deitadas por centenas de metros

Tentando se esconder na mureta de concreto

Pra fechar, só lembrar de uma menininha ali do lado

A maior medalhista de todos os tempos

Sem alongar esse papo de megaeventos

Mas não poderia faltar uma homenagem

A essas mulheres negras que trouxeram

medahas de ouro ao Brasil. Aliás…

Só pra reforçar… 100% dessas medalhas

Foram trazidas por mulheres… Aí…

Ana Patrícia, Duda, Bia, Rebeca…

E todas essas Guerreiras do Brasil

Novembro, pra fechar com chave de ouro

Prenderam um, dois, três, depois prenderam outro

Soldado, cabo, sargento, sub tenente, aspirante

Tenente, Capitão, major, coronel, general

O golpe acoado, foi na gringa recorrer a quem?

O Pato vai querer ajudar alguém?

Dezembro… Foi mais um general…

Qual seria o presente de natal?

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Ser

Não quero mais saber 

De ficar sem você 

Quero matar o tempo 

Pra te conhecer

Agora ser, ser

E não mais estar 

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Felicidade

Eu queria entender

O que é felicidade

Comecei a procurar

Pelas ruas da cidade

Filósofos, poetas

Moradores

Vizinhos, profetas

professores

Todo mundo procurava

O que é que é ser feliz

A resposta que estava aqui

Bem debaixo do nariz

Felicidade pode ser

Uma vontade de viver

Felicidade é ter amigos

Uma vontade de estar contigo

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O filho

Quando era criança

Via o mundo bem mais simples

Mas conforme crescia

As coisas ficavam complicadas

Tinha medo de crescer mais

E ter que ir trabalhar

Como meu pai e minha mãe

Eles só trabalhavam

Não tinham tempo pra nada

Não podiam brincar

Jogar bola de gude

Andar de patinete

Só trabalhavam

Pra ganhar dinheiro

Mas não tinham dinheiro

Quanto mais crescia

Mais perguntava

Onde estava aquele dinheiro

Que meu pai e minha mãe

Tanto trabalhavam pra ganhar

Fiquei adolescente

Jovem, adulto

Nunca tive essa resposta

Pra dar ao meu filho

Nunca tive essa resposta

Pra dar ao meu filho

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O destino

Não adianta dizer

O que devo fazer

Matar ou morrer

Ir ai céu ou ao inferno

A vida é minha

Por mais que tenha boa vontade

Não é dono da verdade

O que é bom para você

Pode não ser pra mim

Queria ver Jesus

Ou fazer magia da braba

Trazer amor em 3 dias

Mas minha parada é outra

Quero colher o que plantei

Traçar meu caminho

Descobrir meu destino

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