mais notícias sobre Cuba – por Jéssica Barbosa

Cuba não é uma cidade para ser desfrutada da forma com a qual estamos acostumados. A primeira impressão que senti foi de estranheza. Caminhando pela habana vieja sinto que é mais fácil achar um salão de beleza e colocar unhas postiças coloridas e enormes que achar um supermercado e comprar uma variedade de frutas. Variedades para comprar não é o forte de Cuba. Não vi um supermercado do modelo que temos no Brasil. Vi muitos cinemas na cidade e uma paixão muito grande por essa arte. Não só dos estudantes da escola de cinema, que tem muitos estudantes brasileiros, mas é um hábito do povo. Os cinemas são grandes e por conta do festival as filas são enormes e as salas sempre cheias. O povo comenta o filme dura a sessão, levanta, fuma dentro do cinema, reage sempre de forma expansiva e vibra muito quando aparece um ator de novela. Eles acompanham nossas novelas e adoram. O cinema brasileiro lhes dá a oportunidade de ver uma realidade diferente da telenovela. As viagens não são habituais e fartas para eles e uma boa maneira de conhecer o mundo é através das salas de cinema. Isso é o mais bacana desse festival. É um festival internacional do cinema lationamericano que reúne diretores, produtores, atores, roteiristas do mundo todo. Um festival que agrega não só os artistas e produtores dos filmes mas todos os cubanos. Um festival que possibilita que filmes que não chegariam lá por conta de dsitribuição cheguem! Experiência única. Vi um filme lindo da Colômbia que acho que não teria a oportunidade de ver aqui, Las colores de la montaña, filme sensível e que me deixou interessada em acompanhar mais sobre o que acontece hoje na Colombia em relação as guerrilhas e conhecer mais do seu cinema. Vi curta-metragens maravilhosos, filmes cubanos super interessantes, muitos filmes brasileiros. As diferenças sociais não são vistas quando se anda pela cidade. Vi bairros diferentes como Cubanacã onde ficam as embaixadas, bairro bem asfaltado com residências e embaixadas luxosissímas completamente diferentes das casas dos outros bairros por onde andei em que as casas as vezes são sustentadas por madeiras. A grande lição de Cuba é que se pode viver e ser feliz com pouco. Há dias em que se quer cenoura mas se come batata…

Algumas pessoas fazem comida em casa para ganhar um extra. Fui comer a famosa comida criolla na casa de uma senhora. Almocei sentada na porta da casa dela num pratinho de izopor arroz congrí (que é um arroz com feijão misturado), porco e 1 banana. Gostei tanto que voltei no outro dia para comer novamente, principalmente por que o preço da refeição é 1,00 peso algo equivalente a R$2,00. Comer em Cuba é barato demais e geralmente os preços são parecidos.
Quando tiramos a máquina fotográfica da mochila e saímos caminhando pela cidade com cara de primeira vez nos entregamos: somos turistas. Como diria o pessoal do 5x favela na nossa testa está escrito: temos CUC. A moeda que o estrangeiro tem acesso se chama CUC e vale 25 vezes mais que a moeda nacional. Nas áreas turísticas sempre vem alguém pedir uma ajuda…Alguns cubanos me falaram que o que eles acham mais difícil da vida na cidade é viver com duas moedas, uma moeda nacional desvalorizada que a moeda do salário e outra que circula por conta dos estrangeiros e que vale muito mais. O salário é o mesmo para um médico ou um engenheiro ou até mesmo um garçom, por isso não vemos uma grande diferença social. Alguns médicos se formam e as vezes vão trabalhar com táxi para estar mais próximos dos CUCs com as gorjetas e o transporte de turistas e poder ganhar um pouco mais.

Não vi por Cuba bancas de jornais ou revistas. O único jornal que vi circular foi o do partido comunista. Tem fotos de Che Guevara por toda a cidade e na televisão há canais que passam documentários sobre a revolução o dia inteiro. O povo cubano aprova o comunismo apesar das dificuldades mas algumas pessoas dizem que o país deveria estar mais aberto para algumas pequenas empresas privadas que movimentassem mais a economia. Não vi moradores de ruas, criança na rua nem pensar, quase nem vi crianças cubanas e perguntei a uma pessoa pelas crianças cubanas e ela me respondeu que estavam na escola. As pessoas cuidam muito da educação das crianças. Com dois anos elas já frequentam a escola. O horário da escola geralmente é integral nos conservatórios. Estuda-se a educação geral de manhã e alguma outra habilidade artística a tarde, como música, dança. Na cidade tem muitos estudantes de medicina brasileiros. O governo de cuba dá uma bolsa com alimentação, moradia e faculdade por seis anos. São 400 estudantes brasileiro numa escola de 2300 alunos.

Aqui o cinema é muito importante para o povo cubano. Estava andando pela cidade com os diretores do 5x favela e algumas pessoas nos paravam para dizer que tinham gostado muito de um filme brasileiro chamado 5xfavela. Um senhor cubano nos disse numa sala de cinema que as histórias que se contam nas novelas são muito diferentes das que se vê num filme como o 5xfavela. Essa é a grande magia desse festival ver o mundo através da tela de cinema. Saber que tem mães colombianas que deixaram seus filmes e se foram para a espanha através de um curta metragem super sensível. Ver o Chile tratando com tanta delicadez de um tema como a sexualidade na adolencência. Mostrar nosso país e nosso cinema lá dá muito orgulho. No Brasil temos cartões de crédito, financiamento bancário, carros de luxo, comida farta, mas não temos um festival como esse. Parabéns ao festival internacional del nuevo cine lationamericano, muito obrigada pelo convite e por conhecer Habana!

Publicado em: http://littlejezz.blogspot.com/2010/12/mais-noticias-sobre-cuba.html

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Sobre Cacau Amaral

Cineasta brasileiro. Direção em 5X Favela; 1 Ano e 1 Dia; Cineclube Mate com Angu; Sociedade Musical Lira de Ouro; Programa Espelho e Aglomerado. https://cacauamaral.com/
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