Estreia

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Ação e reação

Prometi escrever um texto onde falaria de nosso debate no Cinecufa, mas assim que sentei-me em frente ao computador percebi o quanto estou nervoso com a aproximação da estreia de 5x favela – agora por nós mesmos, e o quanto sinto vontade de compartilhar isso com o público. É meio difícil explicar, mas não consegui nem ir à faculdade. Desde a finalização do filme, experimentamos diversas emoções. Sinceramente,
não sei quando isso vai parar, mas gosto. Gosto muuuiiito.

Acabei de ler o texto publicado por Celso Athaíde em nosso site e acada linha viajava no tempo. No tempo em que entreguei um CD demo a Def Yuri, que ao ouvir me aconselhou a inscrevê-lo no Prêmio Hutus. Estava em Caxias ouvindo rap, quando a locutora disse que meu grupo havia sido indicado à categoria Melhor Demo. Na hora nem acreditei,mas em poucos dias estava reunido com uma porrada de malucos compartilhando medos, sonhos, ideias loucas. Hoje a Cufa é reconhecida em todo Brasil e no mundo, mas naquele tempo nem nome tínhamos.

Gravamos um CD chamado Ação e reação, com vinte grupos de rap carioca loucos pra gritar pelo fim do preconceito. Era um barriu depólvora pronto pra explodir. E o melhor: MV Bill tinha acabado de
descolar uma câmera para fazer o Falcão – meninos do tráfico, e três dos vinte grupos gravariam um videoclipe com a danada. Esse foi meu primeiro contato com o cinema.

Faltam menos de 24 horas pra estreia de nosso filme. Dá meio que um nó na cabeça, só de ficar pensando nessas coisas. Como a ação de gravar um simples demo gera uma reação e outra e outra até desencadear
no maior filme de minha vida. De nossas vidas.

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5X Favela na Revista Piauí

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“5X Favela” – boas intenções, segundo o poeta

27/08/2010 07:17 | Autor: Eduardo Escorel

Motivado pelo comentário publicado na piauí 47 sobre “5X Favela – Agora por Nós Mesmos”, Armando Freitas Filho levanta algumas questões, mesmo sem ter visto o filme:

“1. Só com uma boa dose de ingenuidade pode-se acreditar, cinematograficamente, nesse ‘nós mesmos’ [do título]. Trata-se, apenas, de uma boa intenção e alguém de peso já disse que a arte não vive de boas intenções.

2. Não estranharia nada que o Cinco vezes favela de 1962 me parecesse mais feito por ‘nós mesmos’ do que esse em exibição – pois a Favela de agora, de encomenda, a imagino como uma espécie remasterizada e remastigada por novas bocas que repetem a comida e o modo de morder das bocas de outrora. Sendo assim, o modo de digerir não fica didático, pré-datado?

3. Que tal se os novatos fizessem um 50XLapa, ou coisa que o valha, com motivação livre e não implantada, o resultado não poderia ser mais ‘quente’, ou, pelo menos, mais instigante?

4. Por que tudo tão simétrico, espelhado como que à força, nostálgico, narcísico? Afinal, a produção ‘em família’, pode ser mais cômoda, e é um modelo atual de sucesso no show business e na imprensa, embora, dificilmente, apresente novidade ou desafio, segundo penso e avalio.”

Além disso, Armando diz discordar do final do comentário publicado na piauí, perguntando: “será que o filme foi bem aceito [no festival de Paulínia] justamente porque não causa nenhum estranhamento, não traz perigo, revelação etc.?”

Amir Labaki, por sua vez, também discordou da menção à premiação em Paulínia. Respondi a ele que o fato de o júri ser integrado por Sérgio Augusto, Ana Luiza Azevedo e Di Moretti, entre outros, me fez acreditar que mencionar os prêmios era uma questão de justiça. Se eles acham que o filme merece tantas loas, quem sou eu para discordar?

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“5 x Favela – Agora Por Nós Mesmos” é arte engajada sem ser política

Cena de "5 x Favela - Agora Por Nós Mesmos"; filme se originou em oficinas de roteiro em comunidades carentes

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PLÍNIO FRAGA
DO RIO

Um filme passado em favela no qual aguarda-se uma hora até que seja ouvido um tiro; um filme sobre favelados que são assaltados por “playboys” da zona sul do Rio; um filme em que um rico critica o pobre por querer “tirar onda de fodido”; um filme sobre favela em que a alegria e o lirismo sobrepõem-se mas não escondem a violência; um filme sobre favela em que os moradores são vítimas, mas também responsáveis pela violência.

“5 x Favela – Agora por Nós Mesmos” é uma obra múltipla do nome à produção –fruto de trabalho coletivo de mais de duas centenas de moradores de favelas do Rio. É múltiplo porque escrito por oficinas de roteiro em comunidades carentes, mas principalmente por expor personagens a facetas variadas, na contramão do mercado, do senso comum e da divisão social estabelecida. Como filme múltiplo, é desigual, como a realidade que retrata.

Contraposta a “5 x Favela” de 1962, obra do catequizador Centro Popular de Cultura, a versão 2010 pode ser enquadrada como revisão crítica do ideário esquerdista de usar a arte para conscientizar as massas. O papo agora é colocar as massas para conscientizar as artes.

O primeiro episódio, “Fonte de Renda”, dirigido por Manaíra Carneiro e Wavá Novais, narra a dificuldade do favelado em cursar direito em meio a alunos de classe média e alta.

Depois de insinuar queda para resolução clichê da tensão dramática, salva-se da obviedade, mas não escapa da solução moralista adequada a quem pretende ser “gente de bem”.

Em “Arroz com Feijão”, direção de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, a doçura da atuação das crianças Pablo Vinicius e Juan Paiva rejuvenesce a fartamente explorada situação de família pobre com dificuldades para comer. Mas não consegue superar o trivial.

“CIDADE DE DEUS”

No terceiro episódio –“Concerto Para Violino”, dirigido por Luciano Vidigal a partir de roteiro criado em oficina em Parada de Lucas–, emerge a violência, ouve-se o primeiro tiro após uma hora de projeção e tem-se a imagem mais impactante quando policiais e traficantes acumpliciados queimam vivo um inimigo comum.

É o momento agudo do filme, que a partir daqui começa a encorpar-se. O episódio é uma versão apobretada de “Cidade de Deus” ou “Tropa de Elite” –e isto é um elogio.

Sem maneirismo publicitário ou reacionarismo de classe média, as fronteiras entre bandidos e mocinhos são embaralhadas a evitar empatias manipuladoras, seja de dó ou catarse.

“Deixa Voar”, dirigido por Cadu Barcellos, tem a abordagem mais criativa e inusual, mostrando como as relações sociais se constroem ou são interditadas em razão de limites de território estabelecidos por facções rivais do tráfico de drogas. É o roteiro mais bem construído.

O episódio final “Acende a Luz”, dirigido por Luciana Bezerra, foi baseado em experiência dos moradores, quando ficaram sem luz na véspera do Natal de 2008. É uma narrativa redentora, empenhada em afirmar um espaço como território alegre e integrador, na qual a palavra “comunidade” se justifica pelas relações baseadas no afeto, não como eufemismo para favela.

Produzido por Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães, o filme, como o original de 50 anos atrás, é arte engajada, apesar de não ser política nos termos clássicos. Mas foge do paternalismo, é original em sua empreitada –apesar de nem sempre o ser na linguagem cinematográfica.

Multiplica os fazedores de cinema, as vozes da favela, os olhos de quem decide o que focar. Multiplica para dividir cultura, experiências e visões de mundo.

5 X FAVELA, AGORA POR NÓS MESMOS
DIREÇÃO: Cacau Amaral, Luciana Bezerra e outros
PRODUÇÃO: Brasil, 2010
COM: Vitor Carvalho, Márcio Vitor
ONDE: estreia sexta-feira 27/8, Unibanco Augusta, HSBC Belas Artes e circuito
AVALIAÇÃO: bom

Publicado em:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/788145-5-x-favela—agora-por-nos-mesmos-e-arte-engajada-sem-ser-politica.shtml

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5X Favela – Revista Veja – Tamanho não é documento

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5X Favela – Jornal O Dia – Cinecufa 2010

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5X Favela – Jornal O Globo – Megazine – Autoretratos da favela

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5X Favela na Revista Piauí

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Edição 47; _questões cinematográficas

De fora, de dentro
por Eduardo Escorel

Desde a década de 60, povos ou classes sociais tradicionalmente vistos de fora, passaram a ser observados de dentro pelos próprios integrantes. É nesta tradição que se insere 5X Favela – Agora por Nós Mesmos. Resta saber qual o valor disso

O filme 5X Favela – Agora por Nós Mesmos tenta responder à necessidade de revitalizar o cinema brasileiro. Diante da produção recente, é urgente encontrar estratégias alternativas que propiciem filmes de maior qualidade, vigorosos e inovadores, voltados para a sensibilidade e a inteligência do espectador. Mantido o modelo atual, e persistindo os resultados sofríveis alcançados, será difícil justificar por muito tempo os generosos investimentos de recursos públicos que vêm sustentando, nos últimos quinze anos, a realização de filmes no Brasil.

“Intervir com ideias novas e novos modos de fazer” é um dos objetivos do projeto, segundo os produtores Carlos Diegues e Renata de Almeida Magalhães. Para isso, entre outras alternativas possíveis, escolheram voltar às origens, atualizando a experiência do filme de episódios 5X Favela, realizado em 1962, a partir de uma proposta de Leon Hirszman – a quem a nova versão é dedicada.

Como indica o adendo ao título, a principal mudança em relação ao original é o fato de 5X Favela – Agora por Nós Mesmos não ser realizado por jovens de classe média. Os diretores, com idades variando dos vinte e poucos aos trinta e muitos anos, moram em favelas do Rio de Janeiro. Escolhidos entre os participantes de oficinas técnicas organizadas pelos produtores, contaram com a colaboração de profissionais na coordenação dos roteiros, fotografia, montagem e trilha sonora, como ocorreu também no filme de 1962.

Não é nova a ideia de habilitar na técnica e na linguagem cinematográficas quem não tem acesso ao conhecimento e meios necessários para se tornar autor das próprias narrativas. Desde a década de 60, diversas iniciativas procuraram criar condições para inverter o sentido do olhar. Povos ou classes sociais tradicionalmente vistos de fora, passaram a ser observados de dentro pelos próprios integrantes.

O projeto Navajos Filmam a Si Mesmos, propondo “entregar a câmera a outros”, começou em 1966, no Arizona, por iniciativa dos antropólogos Sol Worth e John Adair. Dois anos depois, os operários da Rhodia rejeitaram o filme Até Breve, Eu Espero, de Chris Marker, por considerarem que era incapaz de exprimir o que sentiam, além de não tratar de questões que consideravam fundamentais. Em resposta, Marker disse aos operários que “os filmes que eles queriam, só eles mesmos poderiam fazer”, o que deu origem aos grupos Medvedkine (homenagem ao soviético Alexandre Med-vedkine, 1900–89, conhecido como “cineasta do trem”), que realizaram 12 filmes entre 1968 e 1973 na França.

No Brasil, passadas algumas décadas, multiplicaram-se iniciativas de apropriação da técnica e linguagem cinematográficas. Desde o Vídeo nas Aldeias, coordenado por Vincent Carelli a partir de 1987, até outras, nas quais os diretores de 5X Favela – Agora por Nós Mesmos iniciaram sua formação, e cujos nomes falam por si: Cinema de Quebrada, Nós do Morro, Cinemaneiro, Filmagens Periféricas, Oficinas Kinoforum, Central Única das Favelas – partindo em geral do pressuposto de que o chamado registro de dentro seria mais autêntico que o de fora. Para entender determinada realidade seria preciso conhecê-la por experiência própria; só poderia ter um novo olhar quem tivesse origem e vivesse no meio social a ser recriado.

5X Favela – Agora por Nós Mesmos se filia a essa tradição, cujo maior desafio sempre foi demonstrar que há uma mudança efetiva quando o ponto de vista é invertido, deixando de ser de fora, para ser de dentro. A dúvida quanto à ocorrência de alteração se justifica, pois em alguns casos se constata o contrário, ou seja, que o olhar de dentro tende a mimetizar o de fora. A ideologia dominante se impõe, levando a crer que o problema não está tanto na direção do olhar, mas na emancipação de quem olha e na sua criatividade.

O que diferencia 5X Favela – Agora por Nós Mesmos da maioria das iniciativas afins é ter oferecido aos realizadores meios financeiros adequados, além de suporte técnico e logístico, para fazer um filme profissional que pudesse ser exibido em igualdade de condições no circuito comercial. Dessa maneira, a equipe não foi obrigada, como costuma acontecer, a se conformar com meios precários que por si só limitam o alcance do que está sendo realizado. Por outro lado, subjacente ao modelo de produção escolhido está o compromisso de buscar a maior visibilidade possível na mídia, o que pode ter levado os realizadores a trabalharem com o tapete vermelho de Cannes e as luzes do festival de Paulínia na cabeça.

Apesar das dificuldades encontradas para financiar 5X Favela – Agora por Nós Mesmos nas condições desejadas, recursos incentivados e apoios acabaram sendo obtidos junto a algumas das principais empresas que dão suporte ao cinema brasileiro. Entre elas estão o bndes, ogx, Ambev, Sony Pictures, Rio Filme, Globo Filmes, além da VideoFilmes, da qual o editor de piauí, João Moreira Salles é sócio. Assim, enquadrado no modelo de produção vigente, a feição do projeto parece ter sido alterada, resultando em filme pouco inovador. Corretos e bem comportados, os cinco episódios seguem padrão narrativo convencional. Não teria sido possível serem mais inventivos, buscando uma linguagem que desse identidade própria a 5X Favela – Agora por Nós Mesmos?

Arroz e Feijão, episódio dirigido por Cacau Amaral e Rodrigo Felha, evita temas óbvios, lidando de maneira leve e bem-humorada com peripécias de dois meninos atrás de dinheiro para comprar um frango.

Deixa Voar, dirigido por Cadu Barcellos, trata da guerra entre facções, mostrando o risco que um adolescente corre para recuperar uma pipa ao cruzar a fronteira entre comunidades vizinhas.

Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, mostra a precariedade do serviço público prestado à comunidade que ainda assim tem energia para celebrar o Natal com música e dança.

Tráfico de drogas, conivência entre polícia e traficantes, violência, roubo de armas, são temas inevitáveis, aos quais se dedicam Fonte de Renda, dirigido por Manaíra Carneiro e Wavá Novais, e Concerto para Violino, dirigido por Luciano Vidigal. Sendo mais previsíveis, ambos não evitam certos estereótipos.

Às variações de assunto não corresponde diferença sensível na maneira de filmar. Os cinco episódios são visualmente semelhantes, dando impressão – estranha em se tratando de cineastas iniciantes – de cuidado excessivo em fazer filmes bem-feitos, deixando de lado qualquer inquietação formal.

Os sete prêmios recebidos no festival de Paulínia, inclusive os de melhor filme, atribuídos por um júri qualificado e pelo voto popular, indicam, porém, que 5X Favela – Agora por Nós Mesmos pode ter potencial maior para agradar do que as ressalvas feitas acima fariam prever.

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Roteiro, roteiro meu…

Texto de Cacau Amaral, publicado no Estadão em 15 de agosto de 2010

Quando recebi o correio de meus camaradas de cineclube a respeito de um vídeo postado no youtube, onde o jovem Leandro é chamado de otário pelo governador, corri pro site. Assisti várias vezes e fiquei refletindo sobre o poder das novas linguagens. Antes de viajar com o 5X Favela, Agora Por Nós Mesmos pra Cannes, tinha feito outra viagem pra debater com os franceses sobre educação à imagem, um tema que considero bastante interessante e está sempre em evidência na mídia.
Vivemos uma época onde o acúmulo de conhecimento não é mais a coisa importante. São redes sociais, onde distribuímos informação em um piscar de olhos; páginas de busca, onde encontramos tudo ou quase tudo que precisamos para escrever um texto como esse por exemplo. A informação está a um clique de mouse.

Na discussão em Paris falamos sobre um evento específico da ocasião, que foi a centena de filminhos que retratavam o momento exato do tsunami e como a mídia convencional seria incapaz de estar em todo lugar ao mesmo tempo. Várias emissoras consagradas, páginas eletrônicas de grandes jornais, rádios de longo alcance. Todos se rendem à nova modalidade de informação. Existe gente que chega a arriscar que a comunicação como conhecíamos antigamente irá acabar.
Todo dia assistimos nossas vidas serem compartilhadas na grande rede, com ou sem nosso consentimento. No início resisti um pouco, mas logo abri mão do preconceito que me impedia de enxergar o lado bom dessa transparência e me rendi. Hoje não me enxergo afastado dessa rotina digital. Acho que isso é bom. Muito bom. A acessibilidade da periferia aos meios de comunicação; não só como mediadores, mas principalmente como produtores de conteúdo; é o carro chefe que norteia minha opinião.

Vivi isso ao dirigir 5X Favela, Agora Por Nós Mesmos. Conheci pessoas fantásticas que faziam um trabalho parecido com o meu, mas, assim como eu, estavam escondidos nas diversas periferias do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que eu e Rodrigo Felha filmávamos o cotidiano do nosso entorno, Luciano Vidigal, Luciana Bezerra, Manaíra Carneiro, Cadu Barcelos e Wavá Novais filmavam o deles. Não receberíamos o reconhecimento que recebemos ao levar nosso filme para o Festival de Cannes, onde fomos aplaudidos de pé por muitos minutos; ou no Festival de Paulínia, onde fomos aclamados com sete prêmios. Nada disso teria acontecido se em um dado momento de nossas vidas não tivéssemos encontrado uma camerinha simples, bem diferente das câmeras sofisticadas da indústria cinematográfica, que nos possibilitava romper o elo de invisibilidade no qual nos enxergávamos mergulhados. Assim como meus vizinhos, fui educado a não ser protagonista de nada.

O primeiro contato com as possibilidades da realização foi quando caminhava pelas ruas de Duque de Caxias e ouvi um rap tocando no sebo que vendia discos de vinil. Prestei atenção na letra. Era muito parecida com as coisas que aconteciam comigo. Olhei a capa do disco e o cara se vestia igual a mim. Pensei: se ele pode, eu também posso!

Iguais a mim, centenas, milhares de jovens brasileiros têm sua oportunidade de serem protagonistas da própria história. Não é uma coincidência que isso esteja acontecendo, pois há muito tempo esses jovens vêm correndo atrás desse momento. Seja na música onde as grandes gravadoras se transformam praticamente em reféns disso que chamei de nova época da comunicação, seja no cinema onde temos à nossa disposição ferramentas de distribuição alternativas, que a cada dia são mais e mais aproveitadas por usuários domésticos e empresários visionários. As favelas estão impregnadas de cursos de cinema onde a cada período são descobertos mais e mais talentos escondidos. Uma multidão de vozes com os temas mais variados, capazes de balançar qualquer mercado.

Viemos de um vácuo produtivo, onde acumulamos ideias e mais ideias. Hoje sobra vontade de multiplicá-las e difundi-las. Os artistas de hoje não necessariamente precisam se render aos dogmas das grandes corporações. E estas se adaptam ao novo mercado sob pena de prejuízos em conseqüência da resistência à cultura nova. Tem empresa que consegue enxergar isso facilmente e faço questão de congratular esse tipo de visão.

Acredito que todos devem trazer essa adaptação para o dia a dia, sejam empresários, moradores de favelas, do asfalto, eleitores, políticos. O episódio vivido pelo governador do Rio de Janeiro foi lamentável, mas prefiro me concentrar nas mudanças que ocorrem na vida de Leandro. Um jovem que num dado momento resolveu sair de sua casa e roteirizar sua própria história. Gosto dessa história porque eu sou um Leandro. Faço parte dessa geração que pega a câmera e vai pras ruas filmar tudo à sua volta. Uma geração que estuda e usa a tecnologia a serviço da sociedade. Que se embrenhou na rede de computadores e troca ideias com o mundo globalizado. Que se cansou de ser refém de uma programação controlada pelos outros e impõe a nova programação, uma nova linguagem.

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Roteiro, roteiro meu…

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