Diário de 5xFavela em Chicago – 1º dia

Após dez horas de vôo, desembarcamos em Atlanta e fizemos um lanche. Atrasei o relógio por conta do fuso e esperamos mais três horas até embarcarmos rumo ao Chicago Film Festival. Chegando ao aeroporto procuramos pelo carro oficial do festival. Segundo o e-mail, ele estaria em frente o desembarque, mas não conseguimos encontrar fácil.

Ligamos para a produção do evento e conseguimos encontrar o carro. Conhecemos a logo do festival pregada no vidro da frente. Fomos à sede para fazer as credenciais. Maneiro que minha foto saiu na credencial do Felha e a foto dele na minha. Até agora não definimos se é melhor ficar com a foto trocada ou com o nome. Até amanhã a gente tem que decidir.

Como hoje foi dia de adaptação à cidade, demos um rolé por toda tarde e à noite fomos assistir o jogo do Chicago Bulls contra o Dallas Mavericks. Pega mal visitar a cidade de Chicago e não conhecer a sede do time. Mas para nossa tristeza o Dallas detonou o Bulls por 109 a 105.

Amanhã, sábado, é nosso primeiro compromisso cinematográfico – um debate que acontecerá à tarde com cineastas de vários países da América Latina. Domingo nosso filme passa pela primeira vez no festival, que além de 5x favela, tem mais duas presenças brasileiras: Besouro e Lula. Tô doidão pra encontrar essa galera e trocar aquela ideia.

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5 x Favela: Now By Ourselves – Film Review

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CANNES — Five short films set in the hillside slums of Rio de Janeiro and directed by young filmmakers who live there make up a film that renews faith in the kind of moviemaking that lives and breathes, and reflects the human spirit in all its colors.
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It’s the result of a project set up by Brazilian producers Carlos Diegues and Renata De Almeida Magalhaes that involved 200 youngsters in filmmaking workshops and master classes by such directors as Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Fernando Meirelles and Walter Salles.
Made using the same crew, the films reflect the experiences and vision of the youngsters, whose work offers an unblinking view of life in the favelas where poverty rules. Hopes are often dashed there and lives can be short but the talent on display in the mix of grim reality and everyday kindness gives cause for optimism.
The pace of life in the favelas shown in the films combines cheerful camaraderie and fearful suspicion with gangs rampant, police corrupt and neighborhoods protective.

The first short, titled “Source of Income,” directed by Manaira Carneiro and Wagner Moraes, shows a decent young man winning a place at law school only to find that he cannot afford the bus fare, let alone textbooks. Rich classmates automatically assume that living in the favela gives him access to drugs and, to prevent his mother resorting to a loan shark, he decides to start dealing with near catastrophic results.
In “Rice and Beans,” directed by Rodrigo Felha and Cacau Amaral, a small boy decides to give his father a rare treat on his birthday by earning enough to buy a chicken for the dinner table. With a buddy, he washes a car and clears horse manure from the street but the car owner says he cannot pay until the next day and local bullies take their other earnings. They decide to steal a chicken but a story related later by the father makes the son decide to make up for his actions.
The harshest tale is “A Violin Concert,” directed by Luciano Vidigal, in which three childhood friends end up on opposite sides of the law. One man is now a police officer and the other a gangster who involves his musician girlfriend in a violent gang war. The punishment meted out when rival tribes clash is shockingly brutal and leaves the cop with only one terrible way to keep his friends from suffering.
“Let It Fly,” directed by Cadu Barcellos, is reminiscent of “The Kite Runner,” with boys flying kites from rooftops. But when one kite is cut and lands in another favela, a boy must risk his life going to retrieve it.
A favela community faces a blazing hot Christmas Day without electricity in “Let There Be Light,” directed by Luciana Bezerra. With food to cook, beer to chill, and decorative lights to be plugged in, family and friends are anxious for one frightened lineman to fix things. It doesn’t look good until the man decides to break the rules.
The final image of one patch of light on a dark mountain seems to sum up what the project means and suggests that the future of Brazilian filmmaking is in good hands.

Venue: Festival de Cannes — Out of Competition
Production: Luz Magica
Cast: Silvio Guindane, Gregorio Duvivier, Hugo Carvana; Juan Paiva, Pablo Vinicius, Flavio Bauraqui, Thiago Martins, Cintia Rosa, Samuel De Assis, Feihao,Victor Carvalho, Joyce Lohanne, Luis Fernando, Marcio Vito, Joao Carlos, Dila Guerra
Directors: Manaira Carneiro & Wagner Moraes, Rodrigo Felha & Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos, Luciana Bezerra
Producers: Carlos Diegues, Renata De Almeida Magalhaes
Director of photography: Alexandre Ramos
Production designers: Pedro Paulo, Rafael Cabeca
Music: Guto Graca Mello
Editor: Quito Ribeiro
Sales: Elle Driver
No rating, 103 minutes

Publicado em: http://www.hollywoodreporter.com/review/5-x-favela-now-ourselves-29634

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5X Favela – Prêmio Melhor Ação de Presença de Marca

Publicado em: almanaquevirtual.uol.com.br

Festival do Rio 2010 – Premiados

Pela Gráfica
Foto Roberto Filho e Alex Paralea /AgNews
05/10/2010

O Juri Oficial da mostra competitiva – presidido pelo diretor Gustavo Dahl, pela atriz Bruna Lombardi, Jorge Sanchez e Leonardo Monteiro de Barros – vota nas seguintes categorias:

– Melhor Longa-Metragem de Ficção VIPs de Toniko Melo (SP)
– Melhor Longa-Metragem Documentário Diário de uma busca, de Flávia Castro (RS)
– Melhor Curta-Metragem Vento, de Marcio Salem (SP)
– Melhor Direção Charly Braun, por Além da Estrada
– Melhor Ator Wagner Moura, por VIPs
– Melhor Atriz Karine Teles, por Riscado
– Melhor Atriz Coadjuvante Gisele Fróes, por VIPs
– Melhor Ator Coadjuvante Jorge DElia, por VIPs
– Melhor Roteiro – Marcelo Laffitte – Elvis e Madona
– Melhor Montagem Vania Debs, por Boca do Lixo
– Melhor Fotografia Adrian Tejido, por Boca do Lixo
– Prêmio Especial de Juri Curta metragem Geral, de Anna Azevedo

VOTO POPULAR:
– Melhor longa de ficção: Senhor do Labirinto, de Geraldo Motta e Gisella de Mello
– Melhor longa documentário: Positivas, de Susanna Lira
– Melhor curta-metragem – Um outro ensaio, de Natara Ney

mostra NOVOS RUMOS – escolhido pelo juri composto pelos diretores Guilherme Coelho, Luciana Bezerra e pelo produtor Ailton Franco Jr.
– Melhor filme – Paranã-puca, onde o mar se arrebenta, de Jura Capela

O juri da Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) composta pelos críticos Wolfgang Hamdorf, Neusa Barbosa e Patricia Rebello.
– Melhor filme latino americano Diário de uma busca, de Flávia Castro

Outros Prêmios:
– Melhor Ação de Presença de Marca: para a cena da cerveja Brahma, parte do episódio Acende a Luz, do filme 5XFavela, Agora por Nós Mesmos.
– Teleimage – 60 horas de tc off para longa metragem juri oficial / 6 horas tc off line e 20 horas de edicao de som para curta metragem fic do juri oficial / 8 horas telecine tape two tape de melhor documentario juri oficial
– Prêmio Projeta Brasil Cinemark:
R$ 30 mil para o melhor longa-metragem ficção eleito pelo Júri Popular;
R$ 15 mil para o melhor longa-metragem documentário eleito pelo Júri Popular;
– Labocine Concessão de um prêmio em serviços no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para o melhor curta-metragem eleito pelo júri oficial do Festival.
– Linkdigital 08 horas de color grading em mesa scratch – Melhor filme de curta metragem juri oficial
– Dolby Licença Dolby 5.1 – melhor curta fic júri oficial
– Globo Filmes 100 mil em mídia de lançamento na TV – longa doc eleito pelo publico
– Porta Curtas Valor de R$ 750,00 para cada ganhador.
– Naymar
. R$ 10.000,00 (dez mil reais) para o melhor longa-metragem ficção, escolhido pelo júri oficial do festival;
. R$ 6.000,00 (seis mil reais) para o melhor documentário, escolhido pelo júri oficial do festival;
. R$ 4.000,00 (quatro mil reais em equipamento) para o melhor curta-metragem, escolhido pelo júri oficial do festival;
– Meios & Mídias 1 mixagem 5.1 Dolby Digital para o Melhor Curta Juri oficial
– Air Star 40.000,00 em locação de equipamento Gaffair.

Publicado em: http://almanaquevirtual.uol.com.br/ler.php?id=25589&tipo=23&tipo2=almanaque&cot=1

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Festival de Biarritz premia ‘5x Favela’ e ‘Sonhos Roubados’

Publicado em: veja.abril

Cinema

Gravação de um dos episódios de '5x Favela', feitos por jovens cineastas dos morros cariocasGravação de um dos episódios de ‘5x Favela’, feitos por jovens cineastas dos morros cariocas (Thiago Zull)

O filme 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, de Cacá Diegues, venceu neste sábado o prêmio do público do 19° Festival de Biarritz, na França. O prêmio de interpretação feminina foi coletivo, entregue a Nanda Costa, Amanda Diniz e Kika Farias, do filme Sonhos Roubados, de Sandra Werneck. 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos reúne cinco curta-metragens, de 20 minutos cada, que se desenvolvem nas favelas do Rio de Janeiro. O filme foi exibido este ano no Festival de Cannes, fora da competição, e dá voz ao ponto de vista de cinco jovens que cresceram e vivem nas favelas do Rio.

Mas o vencedor do Grande Prêmio El Abrazo do Festival de Biarritz foi o filme mexicano Revolución, uma interpretação crítica da revolução de 1910 realizada por dez cineastas. O filme vencedor, que recebeu também o prêmio da crítica francesa, é um compêndio de dez curtas dirigidos por Carlos Reygadas, Amat Escalante, Gael García Bernal, Diego Luna, Mariana Chenillo, Patricia Riggen, Fernando Eimbcke, Rodrigo García, Gerardo Naranjo e Rodrigo Plá, que dão sua visão pessoal à revolução mexicana.

No ano passado, o Festival de Cinema e Cultura da América Latina também premiou o México, ao coroar como melhor longa-metragem Cinco Días sin Nora, de Mariana Chenillo, uma das realizadoras de Revolución. O filme boliviano Zona Sur, no qual o cineasta Juan Carlos Valdivia narra uma Bolívia em transição, através da decadência de uma família de classe alta, ganhou o Prêmio do Júri, presisido pelo diretor francês Patrick Chesnais e do qual fizeram parte o escritor chileno Luis Sepúlveda e a atriz argentina Martina García.

O prêmio de melhor ator foi para o argentino Osmar Núñez, protagonista de La Mirada Invisible, de Diego Lerman, um retrato obscuro e dramático da ditadura argentina. O prêmio El Abrazo de melhor curta-metragem foi para Los Minutos, las Horas, uma produção da escola de cinema San Antonio de los Baños, de Cuba, que foi filmado por uma de seus estudantes, a brasileira Janaína Marquez Ribeiro. O El Abraço de melhor documentário ficou com a também brasileira Flávia Castro, de Diário de Uma Busca, que tenta retratar a vida e a morte de um militante de esquerda dos anos 1960 no Brasil.

Publicado em: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/festival-de-biarritz-premia-5-x-favela-e-sonhos-roubados

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5X Favela – Crítica – Francisco Taunay

Crítica de Cinema
5X Favela, Agora Por Nós Mesmos, de Cacau Amaral, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra

Francisco Taunay analisa o filme ‘5X Favela’

Em 1961, cinco jovens diretores universitários realizaram um filme de episódios sobre as favelas cariocas. O filme, bancado pela União Nacional dos Estudantes, mostrava um olhar da classe média sobre a favela, e foi realizado pelos hoje conhecidos Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzman e Cacá Diegues. Não vi este filme, mas somente uma parte dele, o curta-metragem Couro de Gato, de Joaquim Pedro. Considero este filme, onde garotos resolvem roubar gatos para vender seu couro a um fabricante de tamborins, um dos melhores filmes já produzidos no Brasil.

Já, este novo 5 X Favela tem o mérito de mostrar um olhar despido de preconceitos sobre a favela, e seus cinco pequenos episódios são dirigidos por moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. O filme foi produzido através de oficinas de cinema, realizadas nas favelas de Cidade de Deus, Parada de Lucas, Morro do Vidigal, entre outras, capacitando jovens para trabalhar com cinema.

Assim, somente um dos cinco curtas-metragens trata diretamente do tema da violência, prato predileto do cardápio de filmes nacionais, que exploram a imagem de um Brasil pobre e violento. Não só o cinema, mas também os jornais e a TV somente entram nestas comunidades para mostrar sangue e sofrimento. O resultado é que não temos idéia da vida das pessoas que moram nas favelas, neste país repleto de cidades partidas, onde crime e violência são o resultado do conflito entre duas culturas,do morro e do asfalto.

Assim, 5 X Favela é um presente que o país ganha agora em 2010: Um filme que mostra a favela com um novo olhar, um olhar que sempre permaneceu oprimido pela indústria cultural. A música parece haver se libertado primeiro desse jugo, uma vez que o samba e o funk já circulam pelos meios de comunicação. Agora, um filme realizado dentro da favela, por moradores da favela, que vai rodar o mundo todo, é realmente um fato admirável, independente de suas qualidades técnicas.

Estas, por sinal, são boas; com exceção de alguns planos um pouco ingênuos, os filmes possuem qualidade. Os destaques são “Deixa Voar”, de Cadu Barcellos, onde um garoto precisa entrar numa favela inimiga para buscar uma pipa e “Acende a Luz”, de Luciana Bezerra, filme meio felliniano sobre o concerto da rede elétrica em uma comunidade.

“Arroz com Feijão”, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, também possui bons momentos, quando uma dupla de garotos resolve roubar um frango para dar de presente ao pai de um deles. O melhor momento deste filme é quando os garotos são assaltados por um bando de estudantes filhinhos de papai.

5 X Favela pode ser a pedra fundamental para uma produção de cultura mais democrática, que não privilegie um ponto de vista preconceituoso e nem assistencialista sobre o morro. Considerando que os filmes brasileiros são poucos e criados por membros da elite privilegiada, e considerando também que a grande maioria destes fracassa enquanto produto comercial e como obra de arte, por que não democratizar mais a produção dos filmes? Talvez incentivar mais filmes com orçamento menor, ou mesmo, como acontece nos países sérios, investir diretamente no cinema o lucro da televisão.

Evidente que esse é um trabalho árduo; não adianta somente dotar as pessoas de meios para realizer filmes, é preciso também possibilitar seu acesso a filmes que ampliem o olhar, que o libertem. Na França, um programa do governo criou um acervo de 100 filmes, escolhidos por um grupo de notáveis como os melhores de todos os tempos, para toda a escola pública. Lá, os alunos podem assistir e pegar esses filmes, que fogem da estética de explosões e tiros dos blockbusters.

Os planos do filme são mal realizados quando se trata de mostrar algum flashback, relacionado à memória dos personagens ou ao universo dos sonhos. Parece que existe nestes diretores uma espécie de dificuldade em mostrar o imaginado. Todo homem precisa sonhar, mas para isso é necessário que ele tenha as mínimas condições para a sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, nós não precisamos somente de meios materiais, mas também de cultura, de arte, os alimentos da alma!

Em uma situação ideal, que pode acontecer no futuro, todos nós seremos capazes de encontrar beleza em todas as pequenas coisas. Todo ser humano possui uma parte misteriosa, algo indeterminado e incompleto, isso não é sentido porque nossas vidas são tão atribuladas que esquecemos desta dimensão da beleza que nos rodeia. Cada ser vivo possui beleza, e deve ser respeitado; nada como ver o olhar do outro para descobrir em algum lugar o seu valor. Este ato é maravilhoso, e me foi proporcionado pelo filme.

Publicado em: http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/entretenimento/5x-favela-agora-por-nos-mesmos-de-cacau-amaral-cadu-barcellos-e-luciana-bezerra/

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“5x Favela – Agora por nós mesmos”

Publiccado em: escrevendo.cenpec

Espelho bem humorado da vida comunitária

Muitas idéias a gente segue ruminando assim que assiste ao filme “5 X favela – Agora por nós mesmos”. Ainda na escada rolante, na saída, ouço de alguns parceiros desconhecidos de platéia frases soltas que dão provas de que ninguém sai sem refletir sobre o tema do filme, tão utilizado ultimamente na nossa sétima arte. Estou falando de histórias de favelas.

Fiquei de imediato com uma ideia simplista e rasteira: a de que somos sustentados por nossos pequenos ou grandes sonhos. E por nossa possibilidade em realizá-los. Pelo menos, parte. E assim continuar alimentando a máquina humana de sonhar e conviver.

Nessa perspectiva, ainda na escada rolante, pude vislumbrar algumas possibilidades concretizadas no filme, sobretudo no que diz respeito a resolução de situações de conflito, preconceito e desigualdade. O que acontece, com título calcado em favela, é que não presenciamos apenas o estereótipo já marcado: o da violência. Encontramos jeitos de resolver conflitos com toques de bom humor, alegria e humanidade.

Senti depois, com a cabeça mais descansada que no desenrolar das suas breves histórias – soando a moral de fábulas modernas – encontramos e bem usufruímos desfechos surpreendentes, interessantes, divertidos.

Embora as cenas se passem em favelas do Rio de Janeiro, penso que é a nossa “vida favela” cotidiana que se apresenta na trama e na tela. Muitos de nós vislumbramos e reconhecemos as situações vividas pelos personagens, espelhadas em nosso dia-a-dia. O que pode ser uma oportunidade de repensarmos a nossa vida comunitária, seja ela na escola, na rua, no bairro, no prédio, na cidade, onde somos vítimas ou agentes de preconceitos e violências reais ou simbólicas.

É que na vida, cidadã e urbana, reverbera a maioria dos problemas enfocados pelos diretores, nos episódios que compõem o filme. Os problemas apresentados fazem parte da vida social que corre. É só ligar a televisão agora para saber.

O 5 X do título me deu a ideia de quantificar. Talvez a sequência dos capítulos do filme funcione como se nos preparasse para contar mais um episódio. Do tipo quem quiser que conte outro. O subtítulo – agora por nós mesmos – me trouxe a ida de que cabe aos sujeitos do presente modificar os rumos dessa nossa vida favela, comunitária e cidadã. Tão desarmônica e, por vezes, tão desumana.

“5 X favela – Agora por nós mesmos” é um filme sobre favela no qual a alegria e o lirismo se misturam com a violência que não pertence apenas ao local favela, mas ao espaço urbano onde ela se insere. É uma comédia dramática que mostra mais uma cara (ou alma) brasileira. Nele, os moradores são responsáveis e vítimas da violência. É uma obra múltipla, do nome à produção: fruto de trabalho coletivo de moradores de favelas do Rio de Janeiro. É múltiplo porque foi escrito em oficinas de roteiro nas comunidades carentes. Como filme múltiplo, é desigual, como a realidade que retrata, mas principalmente por expor personagens a facetas variadas, na contramão do mercado, do senso comum e da divisão social estabelecida.

Sete jovens cineastas de comunidades do Rio de Janeiro, formados em oficinas profissionalizantes ministradas por profissionais como Walter Salles, Ruy Guerra e Fernando Meirelles, foram os responsáveis pelas histórias que compõem este filme. Baseado na obra Cinco Vezes Favela, de 1961,produzido por cinco jovens da classe média que subiram os morros para fazer um filme em episódios. Vale dizer que a versão atual foi apresentada em caráter hors concours no Festival de Cannes deste ano. O primeiro episódio apresentado é Fonte de Renda, dirigido por Manaíra Carneiro e Wagner Novais. Com o uso da estratégia que conta do fim para o início, o episódio retrata a trajetória de Maicon (Silvio Guindane), jovem que sonha com a faculdade: algo muito caro para qualquer família pobre da favela.

Arroz com Feijão, a segunda narrativa, é uma mistura de gêneros feita por Rodrigo Felha e Cacau Amaral. Com um final surpreendente, conta as aventuras do pequeno Wesley (Juan Paiva) que, no dia do aniversário do seu pai, se junta com seu melhor amigo Orelha (Pablo Vinicius) para conseguir algo raro para o jantar do pai: um frango.

Luciano Vidigal é o diretor da terceira obra: Concerto Para Violino. Neste, o tráfico de drogas, misturado ao tema da amizade é abordado diretamente, de maneira ríspida e violenta, assim como apresentado em outros filmes conhecidos, como Cidade de Deus.

O próximo episódio, Deixa Voar, de Cadu Barcelos, surge com um clima de tensão e afeto. Flávio é um adolescente de 17 anos que decide enfrentar o medo e ir até a favela rival para recuperar a pipa de seu amigo.

Luciana Bezerra assina Acende a Luz, o último da série, que traz a mensagem de que vale a pena usufruir da vida. Tudo acontece na véspera de Natal, quando toda vizinhança está pronta para comemorar. Porém, o morro está sem luz e o que era para ser uma tragédia se torna cômico e divertido.

Na idéia de levar filme para a sala de aula, penso eu que os episódios poderão ser apresentados aos alunos e, através deles, teremos pano pra manga para muitas reflexões. Há tantos temas que afloram das cenas que fica até difícil escolher. Muito provavelmente o olhar do grupo espectador que poderá suscitar bons assuntos para discussão.

Penso que o modo de contar as narrativas no filme, com humor e suspense, é material estimulador às aulas de leitura e produção de contos e crônicas. Valendo-se do titulo , quem sabe você não enverede a sua turma a investigar uma boa história para contar?

No mais, é deleite e boa diversão.

Publiccado em: http://www.escrevendo.cenpec.org.br/ecf/index.php?option=com_content&view=article&id=25375&catid=57&Itemid=161

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Mate com angu- especial de primavera

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Agora nós somos os cineastas – por Marília Gonçalves

Um pai cansado de comer arroz com feijão todo dia. Um filho que quer presenteá-lo com um jantar farto. Assim começa a história de Arroz com Feijão, um dos curtas que compõem o filme 5x Favela. No curta, tensão, comédia e crítica social se misturam na saga de dois meninos em busca de R$ 5,00 para comprar um frango vivo.

Os diretores do episódio, Rodrigo Felha e Cacau Amaral, não são novatos no cinema. Rodrigo, que já foi estoquista de sapataria, e Cacau, que ainda trabalha numa refinaria, resolveram investir no cinema há cerca de 10 anos, ambos através da Central Única das Favelas (Cufa). Conheça a história desses dois cineastas que têm como plano futuro trazer o Oscar para o Brasil.

Como foi o início da relação de vocês com o cinema?
Felha: Minha entrada no cinema foi através da Cufa. Fui convidado pra carregar bolsa de um câmera, e, sem saber, eu estava fazendo o papel de assistente. Daí veio o encanto natural pelo cinema, e eu fui estudar por conta própria. Isso aconteceu há dez anos. Algum tempo depois eu assumi a função de câmera de um documentário que fez muito barulho no Brasil, que foi o Falcão: Meninos do Tráfico. Dali minha história já tinha começado sem eu saber. Foi criado o Núcleo de Audiovisual da Cufa, que eu coordenei durante 7 anos, e eu estudei na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Depois, o Cacá convidou a gente pra fazer a oficina, e nós fizemos junto com toda a galera.
Cacau: Eu também cheguei ao cinema através da Cufa. Eu tinha um grupo de rap chamado Baixada Brothers, e decidi fazer um videoclipe do grupo. Para isso, eu comecei a estudar cinema na Cufa em 2002. Foi quando conheci o Cacá, dando aula lá. Aí eu fiz um documentário, chamado Um Ano e Um Dia, e o Cacá me incentivou a inscrevê-lo em festivais. Ganhei dois prêmios nacionais e um internacional. De 2002 até 2006 eu não saí das oficinas mais. Hoje eu ainda estou lá, mas agora como professor de Roteiro.

O que vocês faziam antes de se envolver com cinema?
Cacau: Eu cantava rap, e, nessa época, era mecânico em São Cristóvão. Hoje, além de fazer cinema, eu trabalho numa refinaria em Caxias. Já trabalhava com produção nos meus shows, mesmo sem saber que eu fazia a produção. A repercussão do documentário Falcão: Meninos do Tráfico foi o que me despertou.
Felha: Na época que eu comecei a me envolver com cinema, era estoquista de loja de calçado. Nós que moramos na favela sofremos com o imediatismo – tem aquela coisa de ter que comprar as coisas pra amanhã. Minha mãe me dizia: “Menino, larga essa história de fazer cinema. Pensa no seu dinheiro, na sua carteira assinada”. Ela não tinha noção. Nem eu. Mas eu decidi apostar e deu certo.

Como foi a construção do roteiro do filme?
Cacau:
O roteiro foi construído numa oficina realizada na Cufa. Foi um processo totalmente democrático. Surgiram mais de 10 argumentos para o filme, e o Arroz com Feijão foi o mais votado. Daí o roteiro foi construído pela turma toda.
 

“Meu plano agora é ganhar o Oscar. Não consigo tirar isso da minha cabeça”
 

O que esse projeto representou para vocês?
Cacau:
Pra mim, profissionalmente, representou a possibilidade de eu agregar mais valor pro meu trabalho. Porque tanto eu quanto o Felha já fazíamos cinema antes de chegar no circuito. Eu tenho 7 curtas metragem, porém, eu estava fazendo cinema restrito ao meu meio, que era a Cufa e o Mate com Angu, cineclube em Caxias que eu toco há 8 anos. Com o 5x Favela eu pude conhecer o Luciano Vidigal, o Cadu, essa galera que já estava fazendo cinema da mesma forma que eu, mas que não trabalhava junto. O convívio que eu tenho hoje com essa galera está me fazendo aprender muito. Isso é o que eu trago de bagagem. Agora, eu acho que vou ter muito mais facilidade de formar minha equipe, apresentar meus projetos, conseguir patrocínio. Antes do 5x Favela eu só fazia cinema independente, com meu próprio dinheiro, ou com vaquinha – a pessoa que eu contratava pra fazer a fotografia do filme tinha também que pagar o salário do ator. Hoje foi agregado à minha carreira essa possibilidade de diálogo com os patrocinadores.
Felha: Acrescento só uma frase ao que o Cacau disse: Antes nós éramos uns cineastas, agora nós somos os cineastas. A gente começa a ter mais peso na balança.

Um crítico de cinema – Maurício Stycer – disse que o filme aborda certos temas com “ingenuidade” e outros com uma “leveza” que não caracteriza de fato algo produzido pelos “moradores de favela”. Como avaliam essa crítica?
Felha: Possivelmente ele não mora numa favela, então ele nunca vai saber se aquilo lá é real mesmo. Só o morador que está vendo o filme vai falar “aquilo ali é real”. A questão da ingenuidade é que estão acostumados a ver filme de tiro, de melancolia. No nosso caso, a gente coloca duas crianças. Dentro da favela existem crianças ingênuas também, então essa ingenuidade acaba entrando de forma natural. Dentro da favela, existem crianças alegres, crianças que se divertem. Eu imagino que algumas pessoas se sintam afetadas, porque nós favelados sempre estivemos na tela retratados, e hoje nós podemos estar retratando, inclusive fazendo críticas sociais. Isso às vezes dói em determinadas pessoas.
Cacau: Eu concordo com o Felha. Não sei qual é a procedência deste crítico, mas eu fico triste do cara querer catequizar uma espécie de cinema: “Se você está fazendo cinema de favela, seu cinema tem que ser de uma maneira específica”. Eu vejo isso como uma amarra. Independente da gente fazer cinema na favela ou no asfalto, esse tipo de amarra é muito ruim. Eu acho que a crítica tem que contribuir pro cinema, e não limitá-lo. Quando eu vou ao cinema como público e vejo algo que eu não esperava, fico muito feliz. Com o 5x Favela nós não temos pretensão nenhuma de sermos os únicos porta-vozes da favela. A gente fez uma abordagem e um enquadramento bem específico que é só uma visão. Independente de ser uma visão real ou ficcional, é uma visão que a gente quer imprimir também. Não necessariamente aquilo é uma experiência que a gente viveu, mas é a experiência que a gente quer apresentar pro mundo, é a forma que a gente quer aparecer pro mundo. Eu assisto filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite, e não enquadraria a favela daquela forma. Acho que a ingenuidade e a alegria do 5x Favela são muito bem vindas pro cinema brasileiro. Na minha visão, ele é um filme tenso, dramático e, sobretudo, alegre. A gente não decidiu se ia fazer um drama ou uma comédia, a gente simplesmente deixou a coisa solta.
 

“Acho que a ingenuidade e a alegria do 5x Favela são muito bem vindas pro cinema brasileiro”
 

Há uma cena no filme Arroz com Feijão em que as duas crianças da favela são assaltadas por um grupo de crianças de classe média, numa inversão de estereótipo. O que inspirou essa cena? Foi alguma experiência pessoal?
Felha:
Exatamente isso (risos). Isso não só já aconteceu comigo como com vários amigos meus que moram na Cidade de Deus. No meu caso, foi um playboy que roubou meu pé de pato na praia da Barra. Na minha infância eu presenciei muito esse tipo de coisa, situações de “esculacho”. Mas quando a gente coloca isso na tela, a classe que sempre retratou se dói, e fica surpresa. Podia ser uma cena muito mais violenta, mas a gente teve cuidado. A gente viu que a suavidade ia falar mais alto que a violência que já é comum no cinema brasileiro.
Cacau: Quando a gente estava afinando o roteiro, ficamos num conflito interno se colocava essa cena ou não. Mas a gente concluiu que tinha que colocar sim. Por que a gente ia comprar essa ideia errada de que só o pobre pode roubar o rico? É claro que os meninos que roubam no filme não precisam de 5 reais, mas eles se sentem superiores, e entendem que têm mais direito ao dinheiro do que os moleques da favela. Acho que foi isso que a gente quis dizer.
 

“imagino que algumas pessoas se sintam afetadas, porque nós favelados sempre estivemos na tela retratados, e hoje nós podemos estar retratando, inclusive fazendo críticas sociais”
 

O que esperam fazer daqui pra frente?
Cacau: Meu plano agora é ganhar o Oscar. Não consigo tirar isso da minha cabeça (risos). O Cacá nem quer que a gente fique falando sobre isso, porque vai que a gente nem é indicado! Mas todo lugar que eu vou, quero saber quem se inscreveu, pra saber se a gente tem chance ou não. A gente vai na porta do cinema e vê a sessão do 5x Favela lotada, e começa a acreditar que pode ser verdade. Se a gente não acreditar, quem é que vai? Um outro plano que tenho, a longo prazo, é fazer outro longa metragem.
Felha: Agora nós estamos fazendo uma série de quatro episódios pra TV sobre a UPP. Os programas vão trazer a visão do morador da favela, do asfalto, do policial e da mídia. Está sendo um desafio pra nós. Eu, por exemplo, estou dirigindo o episódio que fala sobre a visão do policial. Na Cidade de Deus, onde eu moro, eu já sofri constrangimento com policiais da UPP. Quanto ao Oscar, está virando um sonho na minha cabeça também. Além disso, estou com um projeto de documentário que vai abordar a homossexualidade nas favelas cariocas.

 

Cacau Amaral (à esquerda) e Rodrigo Felha, durante as filmagens de Arroz com Feijão. Foto: Divulgação 5x Favela

 Cacau Amaral (à esquerda) e Rodrigo Felha, durante as filmagens de Arroz com Feijão. Foto: Divulgação 5x Favela

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Oscar 2011

Publicado em: cultura.gov.br

Conheça os filmes inscritos para seleção

23 filmes se inscreveram para participar da seleção do filme brasileiro que poderá concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2011

A Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura recebeu até esta terça-feira – 31 de agosto – 23 filmes para participar da seleção do longa-metragem brasileiro que será indicado para concorrer ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2011.

São eles:

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Resultado

O nome da produção brasileira escolhida será anunciado pela Comissão Especial de Seleção, no dia 23 de setembro. Já os cinco filmes selecionados para concorrer ao Prêmio de Melhor Língua Estrangeira serão anunciados em 25 de janeiro do próximo ano. A cerimônia de premiação será realizada no dia 27 de fevereiro de 2011.

Comissão

A Comissão de Seleção que irá escolher o filme brasileiro é composta por membros indicados pelo Gabinete do Ministério da Cultura (MinC), pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), pela Agência Nacional de Cinema do Brasil (Ancine) e pela sociedade Civil Organizada, representada pela Academia Brasileira de Cinema (CBC).

A banca será composta por Cássio Henrique Starling Carlos, Clélia Bessa, Elisa Tolomelli, Frederico Hermann Barbosa Maia, Jean Claude Bernardet, Leon Kakoff, Márcia Lellis de Souza Amaral, Mariza Leão Salles de Rezende e Roberto Farias.

Você pode ajudar na escolha do filme que será indicado ao Oscar 2011 votando.

Publicado em: http://www.cultura.gov.br/site/2010/09/08/oscar-2011-8/

Publicado em 5x, Clipping, Festivais, Na rede | Deixe um comentário

Porradão de 20 – por Celso Athayde

O Porradão de hoje é com dois daqueles que estão se destacando como as mais bem-sucedidas promessas do cinema nacional, tendo dirigido dois curtas que compõe o filme “5 X Favela – Agora por nós mesmos”.

Cadu Barcellos, 22 anos, integrante da organização Observatório das Favelas. Morador do Complexo da Maré e diretor do filme “Deixa Voar”.

Cacau Amaral, 36 anos, vive em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Dirigiu junto com Rodrigo Felha o filme “Arroz com feijão”.

Desliguem os celulares que a sessão já vai começar!

– Quem eram vocês antes e quem são agora?

01 Cadu Barcellos: Eu era o Cadu Barcellos, morador do Complexo da Maré, um moleque de 23 anos que pra muitos estava remando contra a maré querendo fazer cinema, uma arte elitista, e cara que meus amigos familiares e vizinhos não viam como algo para um favelado. Hoje sou o Cadu Barcellos, morador do complexo da Maré, Cineasta que provou a muita gente que podemos sim ser cineastas, advogados, médicos, astronautas, atores e etc.

2 – Cacau Amaral: A mídia se interessou muito por nossas histórias e entendo isso como uma coisa boa. Mesmo sabendo que internamente não muda muita coisa. Sou o mesmo Cacau Amaral de cinco anos atrás, mas com uma oportunidade a mais de aumentar o bolo de amizade e cooperação profissional. Fazia filmes com meus amigos da CUFA, do Mate com angu e sempre esbarrava com outras galeras pelos festivais e debates, mas agora pude me aproximar muito mais do Vidigal, da Maré… Conheci pessoas muito bacanas e levo isso pra minha vida.

– Um dos pontos comuns em todos os curtas que compõem o filme, seja na leveza e ingenuidade que propõe alguns temas ou no peso que propõe outros, é que a noção de certo e de errado é relativa. Essa noção de ética já foi uma dúvida em algum momento da vida de vocês?

3- Cadu Barcellos: O que é certo ou errado, a linha da legalidade e da moralidade são bem mutáveis pra quem mora na favela e pra mim não é diferente. Tive dúvidas em muitos momentos e acho que posso voltar a tê-las e acho isso muito bom porque me faz refletir sobre o espaço em que vivo e a sociedade em que eu ando, crio, recrio, discuto e quero mudar.

4- Cacau: Tive uma infância isolada dentro de meu bairro. A única experiência cultural fora dele era assistir o filme dos Trapalhões no fim do ano e ver o Papai Noel chegar de helicóptero no Maracanã, tudo nas férias de verão. Durante todo resto do ano, aprendia uma ética muito peculiar com meus vizinhos e quando comecei a frequentar o centro da cidade tive vergonha dessa forma de pensar. Tentei imitar as pessoas de outros lugares, mas o convívio com vários pensadores me trouxe referências que me fizeram perceber a babaquice que estava praticando e inverti o processo de novo: passei a negar a cultura hegemônica e a gritar que minha cultura é que era foda. Hoje vejo que tudo valeu. Esse transitar me fez gozar um novo momento, onde pude agregar experiências de todos os lados e engrossar meu banco cultural.

– O título do “agora por nós mesmos” sugere a mensagem de que foram necessários quase 50 anos para que um filme intitulado “5 vezes favela” fosse realmente dirigido por moradores de favelas. O que no cenário do cinema nacional atual favorece a realização de produtores de favelas e periferias e quais ainda continuam sendo os principais empecilhos?

5- Cadu Barcellos: O que ajuda é o “boom” tecnológico com câmeras digitais, celulares, agora câmeras HD’s que permitem que a gente experiente, faça e faça, coloque a mão na massa. Mas ao mesmo tempo muitos de nossos filmes não têm visibilidade e mercadologicamente falando ainda não fomos inteiramente absorvidos.

6- Cacau: O grito da periferia passa a ser ouvido. Essa voz sempre ecoou em três aspectos: num primeiro momento como um lamento infinito, sem saída; depois como o apontamento de um caminho de desgraça para ambos os lados e num terceiro momento tendo como propósito maior a visão de solidariedade. À medida que os mais privilegiados entendem que a segregação trará consequências para eles mesmos, cria-se esse terceiro momento onde aparentemente a união reina entre a população. Mas sabemos que no fundo isso é só um apontamento, uma vontade. Lutamos para que essa idéia se torne uma união de fato, pois hoje ela acontece apenas entre uma minoria. Tenho fé que 5x favela – agora por nós mesmos contribuirá para esse futuro que tentamos imprimir.

O principal empecilho é o preconceito. Não podemos achar que todo brasileiro tem a mente aberta, pois nem todo mundo teve a oportunidade de conhecer seu país. Se não conhecemos o outro não podemos enxergá-lo como nós mesmos, mas à medida que temos acesso a essas pessoas, temos a oportunidade de sentir na pele o que eles sentem. Acredito que nosso filme é uma oportunidade para muitos brasileiros que nunca tiveram acesso à favela, o tenham através da tela do cinema. Pelo que estou percebendo as pessoas confiam no “agora por nós mesmos” e entendem nosso enquadramento da favela como uma real oportunidade de conhecê-la. A exposição desse espaço; tenso, dramático e alegre ao mesmo tempo; é a melhor forma de corroermos o preconceito, que foi construído em cinco séculos de cultura. Essa virada que vivemos hoje depende de muito trabalho até que tenhamos força para lutar de igual pra igual. Não fazemos isso pela periferia. Fazemos pelo Brasil.

– “Cinco vezes favela”, lançado em 1962, ficou marcado com um dos filmes fundamentais para o advento do cinema novo. Alem do inegável legado social, o que esperam dessa nova versão ?

7- Cacau: O cinema é uma arte de vários braços, entre eles uma ferramenta de proposição de comportamentos. O cinema norte-americano passou um século impondo seu modo de ser ao resto do mundo. Não quero fazer juízo disso, mas entendo que o cinema pode e deve ser usado pela América Latina para difundir nossos valores dentro e fora dela. Fiquei feliz em ver que a crítica européia tem olhos para esse movimento e tenho muito orgulho do em fazer parte disso.

8- Cadu Barcellos: Acho que esse filme também é um marco quando penso que agora é “por nós mesmos”, são realidades, histórias que muitos já até ouviram por ai, mas não estavam impressas cinematograficamente falando, são historias que agora o mundo vai poder ver. E esse filme abre uma porta que esteve há muito tempo trancada, é mostrar um trabalho que vem sendo reconhecido pela crítica, em festivais.

– Você acredita que esse reconhecimento tem sido conquistado por qual motivo? Seria apenas pela bandeira social que o filme levanta?

9- Cadu Barcellos: Acredito que menos pelas questões sociais ou por ser da galera da favela e mais por sua qualidade cinematográfica. Mostrando que democracia sem oportunidade não é democracia, que a oportunidade foi dada e foi correspondida. E que outros filmes venham para carimbar isso.

– Quais foram os momentos mais difíceis no set de gravação?

10- Cadu Barcellos: Fazer um filme é sempre muito difícil, ainda mais no Brasil. No meu caso meu episódio era todo exterior dia, eu necessitava de sol, então eu precisei de uma semana de sol para gravar meu filme. Se chovesse não tinha cena interna para gravar. Mas meu santo é forte e tive uma semana com um sol de rachar. Rs rs

11- Cacau: Dirigir crianças. Eles não respeitam marcas e tornam os ensaios muito mais longos. Já nos testes de elenco, percebemos que seria uma aventura arriscada, mas ao mesmo tempo a intuição nos apontava para um grande leque de possibilidades. Entendo que a disposição em apostar nessa moeda foi uma das forças que levaram ao sucesso do filme.

– E os mais marcantes?

12- Cadu Barcellos: O dia mais marcante foi quando filmei na Maré, no meu lugar, na minha casa meu quintal. Ter feito planos no lugar onde cresci corri, brinquei, aprendi, perdi, ganhei foi mágico pra mim. Eu nunca tinha visto a Maré retratada no cinema, inclusa na mágica que é um filme, um set de filmagem. Foi muito especial.

13- Cacau: Estamos o tempo todo aprendendo. Quando recebi o convite para dividir a direção com o Felha, aceitei por confiar no Cacá; mas ao mesmo tempo fiquei com medo. Antes de 5x favela, tive experiências desgastantes dividindo direção; mas em conversa com nossos mestres, nesse caso o Ruy Guerra, entendi que o fato estava posto e não havia pra onde correr.

– Qual foi a solução encontrada?

14- Cacau: Nossa opção foi ao invés de olhar isso como um problema olhar como uma oportunidade de crescimento. Ter uma cabeça pensante a mais para facilitar as tomadas de decisão, diluir os momentos difíceis e principalmente amplificar os bons. Foi com esse sentimento que eu e Felha nos transformamos num só coração e tocamos esse barco até o fim. Aprendi muito com isso. O cinema é uma arte coletiva. Quanto mais você abre mão da autoria, mais você é autor.

– Vocês acreditam que o cinema nacional passa a partir desse momento a olhar os realizadores de favelas e periferias com outros olhos?

15- Cadu Barcellos: Acho que um passo foi dado, não me iludo a achar que agora teremos vários filmes com o olhar de realizadores de favelas da noite pro dia. Mas acho que foi um primeiro passo para mostrar que nas favelas se sabe fazer e muito bem.

16- Cacau: Sim. Vejo isso na prática em todos os debates, entrevistas e quando ando pelas ruas. Nossa galera já produz há muito tempo. São dezenas de coletivos de cinema no Rio, São Paulo, Minas, Brasília e muitos outros estados. Na internet você pode achar centenas de obras dignas do grande público, o problema é que o mercado não comporta – hoje – toda essa massa produtiva. 5x favela vem, diante desse cenário, dar mais um empurrão e funcionar, principalmente, como uma vitrine para que mais pessoas tenham acesso a essa cinematografia.

– Vocês acham que seus projetos pessoais terão mais chances de serem aprovados a partir de agora?

17- Cadu Barcellos: Acho que estamos em um bom momento, mas não acho que nossos projetos serão aceitam se não forem bons. A qualidade está acima de qualquer coisa.

18- Cacau: Aposto todas minhas cartas nisso. É diferente um de nós chegar numa empresa com seu projeto embaixo do braço hoje e antes do filme. Tivemos muitas dificuldades para captar recursos com sete cineastas iniciantes, mas hoje muitos empresários que não acreditaram devem ter se arrependido. Digo isso não a partir de uma visão subjetiva minha, mas objetivamente porque o filme foi sucesso de crítica e já está sendo de público.

– Como vocês vão administrar as relações de vaidades diante de tanta divulgação e reconhecimento?

19- Cadu Barcellos: Ainda estou me acostumando com esse reconhecimento e em alguns momentos a “tietagem”, mais a realidade nos deixa com o pé no chão. Ainda pegamos o ônibus lotado, temos que tirar daqui pra pagar uma conta ali, colocar lá pra suprir daqui. Então acho que quanto a isso estamos bem tranqüilos.

20- Cacau: Essa equação é complexa e não se resolverá da noite pro dia. Como partimos de um processo de invisibilidade, ser reconhecido pode ser prazeroso, mas também pode trazer transtornos pelo aumento de expectativas inatingíveis ou mesmo por um afastamento de parceiros e amigos. O jeito é nos apegar a eles; os amigos que sempre nos ajudaram, nos cobrando. No lançamento do projeto “Mão na Cabeça”, da CUFA, aprendi uma bela lição com o discurso de Luis Eduardo Soares e a partir dali sempre que dou uma entrevista como esta, sempre que posto uma simples frase dita por uma personalidade em meu twitter, me pergunto o que meus amigos vão pensar ao ler aquilo. Se a resposta for que eles me admiraram por ter me tornado uma pessoa mais ética, não tenho dúvida de que estou no caminho certo. Caso contrário é melhor esquecer. Mas ao mesmo tempo não podemos perder a oportunidade de aproveitar o momento e transformá-lo numa constante. É uma faca de dois gumes.

COMENTÁRIOS:

Comentário: Boa Cacau, Cadu e demais. Boa sorte sempre! Aos \”homens de preto\”. kkk Clayton
Clayton Vidal – RJ

Comentário: \”Agora por nós mesmo\” é, pra mim, o melhor conceito que filme 5X Favela trás. Os entrevistados deixam transparecer essa necessidade de produzir uma compreensão da favela pelos próprios moradores. E mais, a partir disso, influenciar as outras representações sociais existentes. A maior conquista do filme pode ser pensada pelo sucesso de bilheteria: mostra que grande parte da sociedade brasileira quer entender essa (re)contrução da favela por seus moradores. O diálogo estará se ampliando entre as realidade sociais desiguais e, por isso, acredito no filme como um novo divisor de águas em nossa cultura nacional. Parabéns aos produtores!
Paulo Pedrassoli – PR

Comentário: Lição de perseverança, identidade, reconhecimento e atitude. Dentre outras coisas eles nos mostraram um leque de possibilidades que por vezes igoramos por nos fecharmos as condições impostas pela sociedade. Com muita qualidade e profissionalismo colocaram 5 faces das muitas que a favela tem! estou extasiada…
Yaisa Santos – RJ

Comentário: Em 1961, 5x Favela foi uma produção que reuniu cinco diretores da classe média se voltando para a favela. Agora, a diferença é que os diretores atuais são habitantes da Favela, mostrando 5 episódios diferentes, porém sem apenas o estigma conhecido de que favela é sinonimo de bandido-drogas-tiroteio. Uma visão realistica, em uma historia contada por eles mesmos, ou melhor, por nós mesmos! Parabéns a todos!
Nana – GO

Comentário: Quando comecei a ler esse entrevista,deu para perceber que eles nunca deixarão de acretidarem em si proprio, mesmo com toda dificuldade uma lição de pura perseverança.meus parabéns 5 vezes favelas…
JOSE CARLOS- CANÙ – RJ

Comentário: Tudo que li sobre até agora me fazem entender que eles falam com muita propriedade de temas como ética e educação, amizade e amor, solidariedade e tolerância, família e comunidade, sem ignorar a violência e as dificuldades cotidianas de que sofrem os moradores de comunidades e sem deixar a ternura e humor de lado. Cacau e Cadu parabéns por esse grandioso trabalho.
Raphael Faria – RJ

Comentário: Que bom ver essas ações sendo efetivadas. São esses relatos que mudam essa visão ruim de nossas favelas. Vocês mostram que queremos que a favela conte os seus desejos, suas lutas diárias e que, juntamente com os governantes, possam influenciar diretamente na proposição da sociedade justa, solidária, igualitária e constantemente sonhada.
Danillo Bitencourt – BA

Comentário: Interessante sabermos como foi gravar o filme, se, como dizem, fazer filme no Brasil é difícil, gravar um filme com a história de quem tantas vezes é esquecido.
Joana Miranda – PR

Comentário: São histórias como essa, que nos damos conta que extravasar os limites e romper barreiras é possivel. Não existe dificuldades para aqueles que acredita, que podem fazer mais. E melhor, fazem realmente. Cacau e Cadu podem acreditar, esse momento de \”tietagem\”é fruto da dedicaçao e comprometimento de vocês com a excelência. Todas as dificuldades serviram de adubo para o sucesso maravilhoso de vocês. Sigam firmes, porque ainda tem muita coisa boa pra chegar!
Maria Dinora Rodrigues – RS

Comentário: Vendo hoje tudo oque acontece no cinema nacional, podemos sentir um pouco do gosto da vitoria, pois quando leio uma entrevista de pessoas como Cacau Amaral, o qual conheco pessoalmente, e meu amigo em particular e ainda dirigindo um projeto como esse o 5X Favela, sinto um orgulho imenso, pois acredito muito nopotencial de cada um envolvido nisso e sei que irao muito mais longe, parabens 5X Favela, parabens a todos.
Wellington Galdino – RJ

Comentário: Lição de perseverança, identidade, reconhecimento e atitude. Dentre outras coisas eles nos mostraram um leque de possibilidades que por vezes igoramos por nos fecharmos as condições impostas pela sociedade. Com muita qualidade e profissionalismo colocaram 5 faces das muitas que a favela tem! estou extasiada…
Yaisa Santos – RJ

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