Festival de Biarritz premia ‘5x Favela’ e ‘Sonhos Roubados’

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Cinema

Gravação de um dos episódios de '5x Favela', feitos por jovens cineastas dos morros cariocasGravação de um dos episódios de ‘5x Favela’, feitos por jovens cineastas dos morros cariocas (Thiago Zull)

O filme 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, de Cacá Diegues, venceu neste sábado o prêmio do público do 19° Festival de Biarritz, na França. O prêmio de interpretação feminina foi coletivo, entregue a Nanda Costa, Amanda Diniz e Kika Farias, do filme Sonhos Roubados, de Sandra Werneck. 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos reúne cinco curta-metragens, de 20 minutos cada, que se desenvolvem nas favelas do Rio de Janeiro. O filme foi exibido este ano no Festival de Cannes, fora da competição, e dá voz ao ponto de vista de cinco jovens que cresceram e vivem nas favelas do Rio.

Mas o vencedor do Grande Prêmio El Abrazo do Festival de Biarritz foi o filme mexicano Revolución, uma interpretação crítica da revolução de 1910 realizada por dez cineastas. O filme vencedor, que recebeu também o prêmio da crítica francesa, é um compêndio de dez curtas dirigidos por Carlos Reygadas, Amat Escalante, Gael García Bernal, Diego Luna, Mariana Chenillo, Patricia Riggen, Fernando Eimbcke, Rodrigo García, Gerardo Naranjo e Rodrigo Plá, que dão sua visão pessoal à revolução mexicana.

No ano passado, o Festival de Cinema e Cultura da América Latina também premiou o México, ao coroar como melhor longa-metragem Cinco Días sin Nora, de Mariana Chenillo, uma das realizadoras de Revolución. O filme boliviano Zona Sur, no qual o cineasta Juan Carlos Valdivia narra uma Bolívia em transição, através da decadência de uma família de classe alta, ganhou o Prêmio do Júri, presisido pelo diretor francês Patrick Chesnais e do qual fizeram parte o escritor chileno Luis Sepúlveda e a atriz argentina Martina García.

O prêmio de melhor ator foi para o argentino Osmar Núñez, protagonista de La Mirada Invisible, de Diego Lerman, um retrato obscuro e dramático da ditadura argentina. O prêmio El Abrazo de melhor curta-metragem foi para Los Minutos, las Horas, uma produção da escola de cinema San Antonio de los Baños, de Cuba, que foi filmado por uma de seus estudantes, a brasileira Janaína Marquez Ribeiro. O El Abraço de melhor documentário ficou com a também brasileira Flávia Castro, de Diário de Uma Busca, que tenta retratar a vida e a morte de um militante de esquerda dos anos 1960 no Brasil.

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5X Favela – Crítica – Francisco Taunay

Crítica de Cinema
5X Favela, Agora Por Nós Mesmos, de Cacau Amaral, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra

Francisco Taunay analisa o filme ‘5X Favela’

Em 1961, cinco jovens diretores universitários realizaram um filme de episódios sobre as favelas cariocas. O filme, bancado pela União Nacional dos Estudantes, mostrava um olhar da classe média sobre a favela, e foi realizado pelos hoje conhecidos Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzman e Cacá Diegues. Não vi este filme, mas somente uma parte dele, o curta-metragem Couro de Gato, de Joaquim Pedro. Considero este filme, onde garotos resolvem roubar gatos para vender seu couro a um fabricante de tamborins, um dos melhores filmes já produzidos no Brasil.

Já, este novo 5 X Favela tem o mérito de mostrar um olhar despido de preconceitos sobre a favela, e seus cinco pequenos episódios são dirigidos por moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. O filme foi produzido através de oficinas de cinema, realizadas nas favelas de Cidade de Deus, Parada de Lucas, Morro do Vidigal, entre outras, capacitando jovens para trabalhar com cinema.

Assim, somente um dos cinco curtas-metragens trata diretamente do tema da violência, prato predileto do cardápio de filmes nacionais, que exploram a imagem de um Brasil pobre e violento. Não só o cinema, mas também os jornais e a TV somente entram nestas comunidades para mostrar sangue e sofrimento. O resultado é que não temos idéia da vida das pessoas que moram nas favelas, neste país repleto de cidades partidas, onde crime e violência são o resultado do conflito entre duas culturas,do morro e do asfalto.

Assim, 5 X Favela é um presente que o país ganha agora em 2010: Um filme que mostra a favela com um novo olhar, um olhar que sempre permaneceu oprimido pela indústria cultural. A música parece haver se libertado primeiro desse jugo, uma vez que o samba e o funk já circulam pelos meios de comunicação. Agora, um filme realizado dentro da favela, por moradores da favela, que vai rodar o mundo todo, é realmente um fato admirável, independente de suas qualidades técnicas.

Estas, por sinal, são boas; com exceção de alguns planos um pouco ingênuos, os filmes possuem qualidade. Os destaques são “Deixa Voar”, de Cadu Barcellos, onde um garoto precisa entrar numa favela inimiga para buscar uma pipa e “Acende a Luz”, de Luciana Bezerra, filme meio felliniano sobre o concerto da rede elétrica em uma comunidade.

“Arroz com Feijão”, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, também possui bons momentos, quando uma dupla de garotos resolve roubar um frango para dar de presente ao pai de um deles. O melhor momento deste filme é quando os garotos são assaltados por um bando de estudantes filhinhos de papai.

5 X Favela pode ser a pedra fundamental para uma produção de cultura mais democrática, que não privilegie um ponto de vista preconceituoso e nem assistencialista sobre o morro. Considerando que os filmes brasileiros são poucos e criados por membros da elite privilegiada, e considerando também que a grande maioria destes fracassa enquanto produto comercial e como obra de arte, por que não democratizar mais a produção dos filmes? Talvez incentivar mais filmes com orçamento menor, ou mesmo, como acontece nos países sérios, investir diretamente no cinema o lucro da televisão.

Evidente que esse é um trabalho árduo; não adianta somente dotar as pessoas de meios para realizer filmes, é preciso também possibilitar seu acesso a filmes que ampliem o olhar, que o libertem. Na França, um programa do governo criou um acervo de 100 filmes, escolhidos por um grupo de notáveis como os melhores de todos os tempos, para toda a escola pública. Lá, os alunos podem assistir e pegar esses filmes, que fogem da estética de explosões e tiros dos blockbusters.

Os planos do filme são mal realizados quando se trata de mostrar algum flashback, relacionado à memória dos personagens ou ao universo dos sonhos. Parece que existe nestes diretores uma espécie de dificuldade em mostrar o imaginado. Todo homem precisa sonhar, mas para isso é necessário que ele tenha as mínimas condições para a sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, nós não precisamos somente de meios materiais, mas também de cultura, de arte, os alimentos da alma!

Em uma situação ideal, que pode acontecer no futuro, todos nós seremos capazes de encontrar beleza em todas as pequenas coisas. Todo ser humano possui uma parte misteriosa, algo indeterminado e incompleto, isso não é sentido porque nossas vidas são tão atribuladas que esquecemos desta dimensão da beleza que nos rodeia. Cada ser vivo possui beleza, e deve ser respeitado; nada como ver o olhar do outro para descobrir em algum lugar o seu valor. Este ato é maravilhoso, e me foi proporcionado pelo filme.

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“5x Favela – Agora por nós mesmos”

Publiccado em: escrevendo.cenpec

Espelho bem humorado da vida comunitária

Muitas idéias a gente segue ruminando assim que assiste ao filme “5 X favela – Agora por nós mesmos”. Ainda na escada rolante, na saída, ouço de alguns parceiros desconhecidos de platéia frases soltas que dão provas de que ninguém sai sem refletir sobre o tema do filme, tão utilizado ultimamente na nossa sétima arte. Estou falando de histórias de favelas.

Fiquei de imediato com uma ideia simplista e rasteira: a de que somos sustentados por nossos pequenos ou grandes sonhos. E por nossa possibilidade em realizá-los. Pelo menos, parte. E assim continuar alimentando a máquina humana de sonhar e conviver.

Nessa perspectiva, ainda na escada rolante, pude vislumbrar algumas possibilidades concretizadas no filme, sobretudo no que diz respeito a resolução de situações de conflito, preconceito e desigualdade. O que acontece, com título calcado em favela, é que não presenciamos apenas o estereótipo já marcado: o da violência. Encontramos jeitos de resolver conflitos com toques de bom humor, alegria e humanidade.

Senti depois, com a cabeça mais descansada que no desenrolar das suas breves histórias – soando a moral de fábulas modernas – encontramos e bem usufruímos desfechos surpreendentes, interessantes, divertidos.

Embora as cenas se passem em favelas do Rio de Janeiro, penso que é a nossa “vida favela” cotidiana que se apresenta na trama e na tela. Muitos de nós vislumbramos e reconhecemos as situações vividas pelos personagens, espelhadas em nosso dia-a-dia. O que pode ser uma oportunidade de repensarmos a nossa vida comunitária, seja ela na escola, na rua, no bairro, no prédio, na cidade, onde somos vítimas ou agentes de preconceitos e violências reais ou simbólicas.

É que na vida, cidadã e urbana, reverbera a maioria dos problemas enfocados pelos diretores, nos episódios que compõem o filme. Os problemas apresentados fazem parte da vida social que corre. É só ligar a televisão agora para saber.

O 5 X do título me deu a ideia de quantificar. Talvez a sequência dos capítulos do filme funcione como se nos preparasse para contar mais um episódio. Do tipo quem quiser que conte outro. O subtítulo – agora por nós mesmos – me trouxe a ida de que cabe aos sujeitos do presente modificar os rumos dessa nossa vida favela, comunitária e cidadã. Tão desarmônica e, por vezes, tão desumana.

“5 X favela – Agora por nós mesmos” é um filme sobre favela no qual a alegria e o lirismo se misturam com a violência que não pertence apenas ao local favela, mas ao espaço urbano onde ela se insere. É uma comédia dramática que mostra mais uma cara (ou alma) brasileira. Nele, os moradores são responsáveis e vítimas da violência. É uma obra múltipla, do nome à produção: fruto de trabalho coletivo de moradores de favelas do Rio de Janeiro. É múltiplo porque foi escrito em oficinas de roteiro nas comunidades carentes. Como filme múltiplo, é desigual, como a realidade que retrata, mas principalmente por expor personagens a facetas variadas, na contramão do mercado, do senso comum e da divisão social estabelecida.

Sete jovens cineastas de comunidades do Rio de Janeiro, formados em oficinas profissionalizantes ministradas por profissionais como Walter Salles, Ruy Guerra e Fernando Meirelles, foram os responsáveis pelas histórias que compõem este filme. Baseado na obra Cinco Vezes Favela, de 1961,produzido por cinco jovens da classe média que subiram os morros para fazer um filme em episódios. Vale dizer que a versão atual foi apresentada em caráter hors concours no Festival de Cannes deste ano. O primeiro episódio apresentado é Fonte de Renda, dirigido por Manaíra Carneiro e Wagner Novais. Com o uso da estratégia que conta do fim para o início, o episódio retrata a trajetória de Maicon (Silvio Guindane), jovem que sonha com a faculdade: algo muito caro para qualquer família pobre da favela.

Arroz com Feijão, a segunda narrativa, é uma mistura de gêneros feita por Rodrigo Felha e Cacau Amaral. Com um final surpreendente, conta as aventuras do pequeno Wesley (Juan Paiva) que, no dia do aniversário do seu pai, se junta com seu melhor amigo Orelha (Pablo Vinicius) para conseguir algo raro para o jantar do pai: um frango.

Luciano Vidigal é o diretor da terceira obra: Concerto Para Violino. Neste, o tráfico de drogas, misturado ao tema da amizade é abordado diretamente, de maneira ríspida e violenta, assim como apresentado em outros filmes conhecidos, como Cidade de Deus.

O próximo episódio, Deixa Voar, de Cadu Barcelos, surge com um clima de tensão e afeto. Flávio é um adolescente de 17 anos que decide enfrentar o medo e ir até a favela rival para recuperar a pipa de seu amigo.

Luciana Bezerra assina Acende a Luz, o último da série, que traz a mensagem de que vale a pena usufruir da vida. Tudo acontece na véspera de Natal, quando toda vizinhança está pronta para comemorar. Porém, o morro está sem luz e o que era para ser uma tragédia se torna cômico e divertido.

Na idéia de levar filme para a sala de aula, penso eu que os episódios poderão ser apresentados aos alunos e, através deles, teremos pano pra manga para muitas reflexões. Há tantos temas que afloram das cenas que fica até difícil escolher. Muito provavelmente o olhar do grupo espectador que poderá suscitar bons assuntos para discussão.

Penso que o modo de contar as narrativas no filme, com humor e suspense, é material estimulador às aulas de leitura e produção de contos e crônicas. Valendo-se do titulo , quem sabe você não enverede a sua turma a investigar uma boa história para contar?

No mais, é deleite e boa diversão.

Publiccado em: http://www.escrevendo.cenpec.org.br/ecf/index.php?option=com_content&view=article&id=25375&catid=57&Itemid=161

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Mate com angu- especial de primavera

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Agora nós somos os cineastas – por Marília Gonçalves

Um pai cansado de comer arroz com feijão todo dia. Um filho que quer presenteá-lo com um jantar farto. Assim começa a história de Arroz com Feijão, um dos curtas que compõem o filme 5x Favela. No curta, tensão, comédia e crítica social se misturam na saga de dois meninos em busca de R$ 5,00 para comprar um frango vivo.

Os diretores do episódio, Rodrigo Felha e Cacau Amaral, não são novatos no cinema. Rodrigo, que já foi estoquista de sapataria, e Cacau, que ainda trabalha numa refinaria, resolveram investir no cinema há cerca de 10 anos, ambos através da Central Única das Favelas (Cufa). Conheça a história desses dois cineastas que têm como plano futuro trazer o Oscar para o Brasil.

Como foi o início da relação de vocês com o cinema?
Felha: Minha entrada no cinema foi através da Cufa. Fui convidado pra carregar bolsa de um câmera, e, sem saber, eu estava fazendo o papel de assistente. Daí veio o encanto natural pelo cinema, e eu fui estudar por conta própria. Isso aconteceu há dez anos. Algum tempo depois eu assumi a função de câmera de um documentário que fez muito barulho no Brasil, que foi o Falcão: Meninos do Tráfico. Dali minha história já tinha começado sem eu saber. Foi criado o Núcleo de Audiovisual da Cufa, que eu coordenei durante 7 anos, e eu estudei na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Depois, o Cacá convidou a gente pra fazer a oficina, e nós fizemos junto com toda a galera.
Cacau: Eu também cheguei ao cinema através da Cufa. Eu tinha um grupo de rap chamado Baixada Brothers, e decidi fazer um videoclipe do grupo. Para isso, eu comecei a estudar cinema na Cufa em 2002. Foi quando conheci o Cacá, dando aula lá. Aí eu fiz um documentário, chamado Um Ano e Um Dia, e o Cacá me incentivou a inscrevê-lo em festivais. Ganhei dois prêmios nacionais e um internacional. De 2002 até 2006 eu não saí das oficinas mais. Hoje eu ainda estou lá, mas agora como professor de Roteiro.

O que vocês faziam antes de se envolver com cinema?
Cacau: Eu cantava rap, e, nessa época, era mecânico em São Cristóvão. Hoje, além de fazer cinema, eu trabalho numa refinaria em Caxias. Já trabalhava com produção nos meus shows, mesmo sem saber que eu fazia a produção. A repercussão do documentário Falcão: Meninos do Tráfico foi o que me despertou.
Felha: Na época que eu comecei a me envolver com cinema, era estoquista de loja de calçado. Nós que moramos na favela sofremos com o imediatismo – tem aquela coisa de ter que comprar as coisas pra amanhã. Minha mãe me dizia: “Menino, larga essa história de fazer cinema. Pensa no seu dinheiro, na sua carteira assinada”. Ela não tinha noção. Nem eu. Mas eu decidi apostar e deu certo.

Como foi a construção do roteiro do filme?
Cacau:
O roteiro foi construído numa oficina realizada na Cufa. Foi um processo totalmente democrático. Surgiram mais de 10 argumentos para o filme, e o Arroz com Feijão foi o mais votado. Daí o roteiro foi construído pela turma toda.
 

“Meu plano agora é ganhar o Oscar. Não consigo tirar isso da minha cabeça”
 

O que esse projeto representou para vocês?
Cacau:
Pra mim, profissionalmente, representou a possibilidade de eu agregar mais valor pro meu trabalho. Porque tanto eu quanto o Felha já fazíamos cinema antes de chegar no circuito. Eu tenho 7 curtas metragem, porém, eu estava fazendo cinema restrito ao meu meio, que era a Cufa e o Mate com Angu, cineclube em Caxias que eu toco há 8 anos. Com o 5x Favela eu pude conhecer o Luciano Vidigal, o Cadu, essa galera que já estava fazendo cinema da mesma forma que eu, mas que não trabalhava junto. O convívio que eu tenho hoje com essa galera está me fazendo aprender muito. Isso é o que eu trago de bagagem. Agora, eu acho que vou ter muito mais facilidade de formar minha equipe, apresentar meus projetos, conseguir patrocínio. Antes do 5x Favela eu só fazia cinema independente, com meu próprio dinheiro, ou com vaquinha – a pessoa que eu contratava pra fazer a fotografia do filme tinha também que pagar o salário do ator. Hoje foi agregado à minha carreira essa possibilidade de diálogo com os patrocinadores.
Felha: Acrescento só uma frase ao que o Cacau disse: Antes nós éramos uns cineastas, agora nós somos os cineastas. A gente começa a ter mais peso na balança.

Um crítico de cinema – Maurício Stycer – disse que o filme aborda certos temas com “ingenuidade” e outros com uma “leveza” que não caracteriza de fato algo produzido pelos “moradores de favela”. Como avaliam essa crítica?
Felha: Possivelmente ele não mora numa favela, então ele nunca vai saber se aquilo lá é real mesmo. Só o morador que está vendo o filme vai falar “aquilo ali é real”. A questão da ingenuidade é que estão acostumados a ver filme de tiro, de melancolia. No nosso caso, a gente coloca duas crianças. Dentro da favela existem crianças ingênuas também, então essa ingenuidade acaba entrando de forma natural. Dentro da favela, existem crianças alegres, crianças que se divertem. Eu imagino que algumas pessoas se sintam afetadas, porque nós favelados sempre estivemos na tela retratados, e hoje nós podemos estar retratando, inclusive fazendo críticas sociais. Isso às vezes dói em determinadas pessoas.
Cacau: Eu concordo com o Felha. Não sei qual é a procedência deste crítico, mas eu fico triste do cara querer catequizar uma espécie de cinema: “Se você está fazendo cinema de favela, seu cinema tem que ser de uma maneira específica”. Eu vejo isso como uma amarra. Independente da gente fazer cinema na favela ou no asfalto, esse tipo de amarra é muito ruim. Eu acho que a crítica tem que contribuir pro cinema, e não limitá-lo. Quando eu vou ao cinema como público e vejo algo que eu não esperava, fico muito feliz. Com o 5x Favela nós não temos pretensão nenhuma de sermos os únicos porta-vozes da favela. A gente fez uma abordagem e um enquadramento bem específico que é só uma visão. Independente de ser uma visão real ou ficcional, é uma visão que a gente quer imprimir também. Não necessariamente aquilo é uma experiência que a gente viveu, mas é a experiência que a gente quer apresentar pro mundo, é a forma que a gente quer aparecer pro mundo. Eu assisto filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite, e não enquadraria a favela daquela forma. Acho que a ingenuidade e a alegria do 5x Favela são muito bem vindas pro cinema brasileiro. Na minha visão, ele é um filme tenso, dramático e, sobretudo, alegre. A gente não decidiu se ia fazer um drama ou uma comédia, a gente simplesmente deixou a coisa solta.
 

“Acho que a ingenuidade e a alegria do 5x Favela são muito bem vindas pro cinema brasileiro”
 

Há uma cena no filme Arroz com Feijão em que as duas crianças da favela são assaltadas por um grupo de crianças de classe média, numa inversão de estereótipo. O que inspirou essa cena? Foi alguma experiência pessoal?
Felha:
Exatamente isso (risos). Isso não só já aconteceu comigo como com vários amigos meus que moram na Cidade de Deus. No meu caso, foi um playboy que roubou meu pé de pato na praia da Barra. Na minha infância eu presenciei muito esse tipo de coisa, situações de “esculacho”. Mas quando a gente coloca isso na tela, a classe que sempre retratou se dói, e fica surpresa. Podia ser uma cena muito mais violenta, mas a gente teve cuidado. A gente viu que a suavidade ia falar mais alto que a violência que já é comum no cinema brasileiro.
Cacau: Quando a gente estava afinando o roteiro, ficamos num conflito interno se colocava essa cena ou não. Mas a gente concluiu que tinha que colocar sim. Por que a gente ia comprar essa ideia errada de que só o pobre pode roubar o rico? É claro que os meninos que roubam no filme não precisam de 5 reais, mas eles se sentem superiores, e entendem que têm mais direito ao dinheiro do que os moleques da favela. Acho que foi isso que a gente quis dizer.
 

“imagino que algumas pessoas se sintam afetadas, porque nós favelados sempre estivemos na tela retratados, e hoje nós podemos estar retratando, inclusive fazendo críticas sociais”
 

O que esperam fazer daqui pra frente?
Cacau: Meu plano agora é ganhar o Oscar. Não consigo tirar isso da minha cabeça (risos). O Cacá nem quer que a gente fique falando sobre isso, porque vai que a gente nem é indicado! Mas todo lugar que eu vou, quero saber quem se inscreveu, pra saber se a gente tem chance ou não. A gente vai na porta do cinema e vê a sessão do 5x Favela lotada, e começa a acreditar que pode ser verdade. Se a gente não acreditar, quem é que vai? Um outro plano que tenho, a longo prazo, é fazer outro longa metragem.
Felha: Agora nós estamos fazendo uma série de quatro episódios pra TV sobre a UPP. Os programas vão trazer a visão do morador da favela, do asfalto, do policial e da mídia. Está sendo um desafio pra nós. Eu, por exemplo, estou dirigindo o episódio que fala sobre a visão do policial. Na Cidade de Deus, onde eu moro, eu já sofri constrangimento com policiais da UPP. Quanto ao Oscar, está virando um sonho na minha cabeça também. Além disso, estou com um projeto de documentário que vai abordar a homossexualidade nas favelas cariocas.

 

Cacau Amaral (à esquerda) e Rodrigo Felha, durante as filmagens de Arroz com Feijão. Foto: Divulgação 5x Favela

 Cacau Amaral (à esquerda) e Rodrigo Felha, durante as filmagens de Arroz com Feijão. Foto: Divulgação 5x Favela

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Oscar 2011

Publicado em: cultura.gov.br

Conheça os filmes inscritos para seleção

23 filmes se inscreveram para participar da seleção do filme brasileiro que poderá concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2011

A Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura recebeu até esta terça-feira – 31 de agosto – 23 filmes para participar da seleção do longa-metragem brasileiro que será indicado para concorrer ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2011.

São eles:

  • As Melhores Coisas do Mundo
  • A Suprema Felicidade
  • Antes que o mundo acabe
  • Bróder
  • Carregadoras de Sonhos
  • Cabeça a Prêmio
  • Cinco Vezes Favela, Agora Por Nós Mesmos
  • Chico Xavier
  • É Proibido Fumar
  • Em Teu Nome
  • Hotel Atlântico
  • Lula, o Filho do Brasil
  • Nosso Lar
  • Olhos Azuis
  • Ouro Negro
  • O Bem Amado
  • O Grão
  • Os Inquilinos
  • Os Famosos e os Duendes da Morte
  • Quincas Berro D’água
  • Reflexões de um Liquidificador
  • Sonhos Roubados
  • Utopia e Barbárie

Resultado

O nome da produção brasileira escolhida será anunciado pela Comissão Especial de Seleção, no dia 23 de setembro. Já os cinco filmes selecionados para concorrer ao Prêmio de Melhor Língua Estrangeira serão anunciados em 25 de janeiro do próximo ano. A cerimônia de premiação será realizada no dia 27 de fevereiro de 2011.

Comissão

A Comissão de Seleção que irá escolher o filme brasileiro é composta por membros indicados pelo Gabinete do Ministério da Cultura (MinC), pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), pela Agência Nacional de Cinema do Brasil (Ancine) e pela sociedade Civil Organizada, representada pela Academia Brasileira de Cinema (CBC).

A banca será composta por Cássio Henrique Starling Carlos, Clélia Bessa, Elisa Tolomelli, Frederico Hermann Barbosa Maia, Jean Claude Bernardet, Leon Kakoff, Márcia Lellis de Souza Amaral, Mariza Leão Salles de Rezende e Roberto Farias.

Você pode ajudar na escolha do filme que será indicado ao Oscar 2011 votando.

Publicado em: http://www.cultura.gov.br/site/2010/09/08/oscar-2011-8/

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Porradão de 20 – por Celso Athayde

O Porradão de hoje é com dois daqueles que estão se destacando como as mais bem-sucedidas promessas do cinema nacional, tendo dirigido dois curtas que compõe o filme “5 X Favela – Agora por nós mesmos”.

Cadu Barcellos, 22 anos, integrante da organização Observatório das Favelas. Morador do Complexo da Maré e diretor do filme “Deixa Voar”.

Cacau Amaral, 36 anos, vive em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Dirigiu junto com Rodrigo Felha o filme “Arroz com feijão”.

Desliguem os celulares que a sessão já vai começar!

– Quem eram vocês antes e quem são agora?

01 Cadu Barcellos: Eu era o Cadu Barcellos, morador do Complexo da Maré, um moleque de 23 anos que pra muitos estava remando contra a maré querendo fazer cinema, uma arte elitista, e cara que meus amigos familiares e vizinhos não viam como algo para um favelado. Hoje sou o Cadu Barcellos, morador do complexo da Maré, Cineasta que provou a muita gente que podemos sim ser cineastas, advogados, médicos, astronautas, atores e etc.

2 – Cacau Amaral: A mídia se interessou muito por nossas histórias e entendo isso como uma coisa boa. Mesmo sabendo que internamente não muda muita coisa. Sou o mesmo Cacau Amaral de cinco anos atrás, mas com uma oportunidade a mais de aumentar o bolo de amizade e cooperação profissional. Fazia filmes com meus amigos da CUFA, do Mate com angu e sempre esbarrava com outras galeras pelos festivais e debates, mas agora pude me aproximar muito mais do Vidigal, da Maré… Conheci pessoas muito bacanas e levo isso pra minha vida.

– Um dos pontos comuns em todos os curtas que compõem o filme, seja na leveza e ingenuidade que propõe alguns temas ou no peso que propõe outros, é que a noção de certo e de errado é relativa. Essa noção de ética já foi uma dúvida em algum momento da vida de vocês?

3- Cadu Barcellos: O que é certo ou errado, a linha da legalidade e da moralidade são bem mutáveis pra quem mora na favela e pra mim não é diferente. Tive dúvidas em muitos momentos e acho que posso voltar a tê-las e acho isso muito bom porque me faz refletir sobre o espaço em que vivo e a sociedade em que eu ando, crio, recrio, discuto e quero mudar.

4- Cacau: Tive uma infância isolada dentro de meu bairro. A única experiência cultural fora dele era assistir o filme dos Trapalhões no fim do ano e ver o Papai Noel chegar de helicóptero no Maracanã, tudo nas férias de verão. Durante todo resto do ano, aprendia uma ética muito peculiar com meus vizinhos e quando comecei a frequentar o centro da cidade tive vergonha dessa forma de pensar. Tentei imitar as pessoas de outros lugares, mas o convívio com vários pensadores me trouxe referências que me fizeram perceber a babaquice que estava praticando e inverti o processo de novo: passei a negar a cultura hegemônica e a gritar que minha cultura é que era foda. Hoje vejo que tudo valeu. Esse transitar me fez gozar um novo momento, onde pude agregar experiências de todos os lados e engrossar meu banco cultural.

– O título do “agora por nós mesmos” sugere a mensagem de que foram necessários quase 50 anos para que um filme intitulado “5 vezes favela” fosse realmente dirigido por moradores de favelas. O que no cenário do cinema nacional atual favorece a realização de produtores de favelas e periferias e quais ainda continuam sendo os principais empecilhos?

5- Cadu Barcellos: O que ajuda é o “boom” tecnológico com câmeras digitais, celulares, agora câmeras HD’s que permitem que a gente experiente, faça e faça, coloque a mão na massa. Mas ao mesmo tempo muitos de nossos filmes não têm visibilidade e mercadologicamente falando ainda não fomos inteiramente absorvidos.

6- Cacau: O grito da periferia passa a ser ouvido. Essa voz sempre ecoou em três aspectos: num primeiro momento como um lamento infinito, sem saída; depois como o apontamento de um caminho de desgraça para ambos os lados e num terceiro momento tendo como propósito maior a visão de solidariedade. À medida que os mais privilegiados entendem que a segregação trará consequências para eles mesmos, cria-se esse terceiro momento onde aparentemente a união reina entre a população. Mas sabemos que no fundo isso é só um apontamento, uma vontade. Lutamos para que essa idéia se torne uma união de fato, pois hoje ela acontece apenas entre uma minoria. Tenho fé que 5x favela – agora por nós mesmos contribuirá para esse futuro que tentamos imprimir.

O principal empecilho é o preconceito. Não podemos achar que todo brasileiro tem a mente aberta, pois nem todo mundo teve a oportunidade de conhecer seu país. Se não conhecemos o outro não podemos enxergá-lo como nós mesmos, mas à medida que temos acesso a essas pessoas, temos a oportunidade de sentir na pele o que eles sentem. Acredito que nosso filme é uma oportunidade para muitos brasileiros que nunca tiveram acesso à favela, o tenham através da tela do cinema. Pelo que estou percebendo as pessoas confiam no “agora por nós mesmos” e entendem nosso enquadramento da favela como uma real oportunidade de conhecê-la. A exposição desse espaço; tenso, dramático e alegre ao mesmo tempo; é a melhor forma de corroermos o preconceito, que foi construído em cinco séculos de cultura. Essa virada que vivemos hoje depende de muito trabalho até que tenhamos força para lutar de igual pra igual. Não fazemos isso pela periferia. Fazemos pelo Brasil.

– “Cinco vezes favela”, lançado em 1962, ficou marcado com um dos filmes fundamentais para o advento do cinema novo. Alem do inegável legado social, o que esperam dessa nova versão ?

7- Cacau: O cinema é uma arte de vários braços, entre eles uma ferramenta de proposição de comportamentos. O cinema norte-americano passou um século impondo seu modo de ser ao resto do mundo. Não quero fazer juízo disso, mas entendo que o cinema pode e deve ser usado pela América Latina para difundir nossos valores dentro e fora dela. Fiquei feliz em ver que a crítica européia tem olhos para esse movimento e tenho muito orgulho do em fazer parte disso.

8- Cadu Barcellos: Acho que esse filme também é um marco quando penso que agora é “por nós mesmos”, são realidades, histórias que muitos já até ouviram por ai, mas não estavam impressas cinematograficamente falando, são historias que agora o mundo vai poder ver. E esse filme abre uma porta que esteve há muito tempo trancada, é mostrar um trabalho que vem sendo reconhecido pela crítica, em festivais.

– Você acredita que esse reconhecimento tem sido conquistado por qual motivo? Seria apenas pela bandeira social que o filme levanta?

9- Cadu Barcellos: Acredito que menos pelas questões sociais ou por ser da galera da favela e mais por sua qualidade cinematográfica. Mostrando que democracia sem oportunidade não é democracia, que a oportunidade foi dada e foi correspondida. E que outros filmes venham para carimbar isso.

– Quais foram os momentos mais difíceis no set de gravação?

10- Cadu Barcellos: Fazer um filme é sempre muito difícil, ainda mais no Brasil. No meu caso meu episódio era todo exterior dia, eu necessitava de sol, então eu precisei de uma semana de sol para gravar meu filme. Se chovesse não tinha cena interna para gravar. Mas meu santo é forte e tive uma semana com um sol de rachar. Rs rs

11- Cacau: Dirigir crianças. Eles não respeitam marcas e tornam os ensaios muito mais longos. Já nos testes de elenco, percebemos que seria uma aventura arriscada, mas ao mesmo tempo a intuição nos apontava para um grande leque de possibilidades. Entendo que a disposição em apostar nessa moeda foi uma das forças que levaram ao sucesso do filme.

– E os mais marcantes?

12- Cadu Barcellos: O dia mais marcante foi quando filmei na Maré, no meu lugar, na minha casa meu quintal. Ter feito planos no lugar onde cresci corri, brinquei, aprendi, perdi, ganhei foi mágico pra mim. Eu nunca tinha visto a Maré retratada no cinema, inclusa na mágica que é um filme, um set de filmagem. Foi muito especial.

13- Cacau: Estamos o tempo todo aprendendo. Quando recebi o convite para dividir a direção com o Felha, aceitei por confiar no Cacá; mas ao mesmo tempo fiquei com medo. Antes de 5x favela, tive experiências desgastantes dividindo direção; mas em conversa com nossos mestres, nesse caso o Ruy Guerra, entendi que o fato estava posto e não havia pra onde correr.

– Qual foi a solução encontrada?

14- Cacau: Nossa opção foi ao invés de olhar isso como um problema olhar como uma oportunidade de crescimento. Ter uma cabeça pensante a mais para facilitar as tomadas de decisão, diluir os momentos difíceis e principalmente amplificar os bons. Foi com esse sentimento que eu e Felha nos transformamos num só coração e tocamos esse barco até o fim. Aprendi muito com isso. O cinema é uma arte coletiva. Quanto mais você abre mão da autoria, mais você é autor.

– Vocês acreditam que o cinema nacional passa a partir desse momento a olhar os realizadores de favelas e periferias com outros olhos?

15- Cadu Barcellos: Acho que um passo foi dado, não me iludo a achar que agora teremos vários filmes com o olhar de realizadores de favelas da noite pro dia. Mas acho que foi um primeiro passo para mostrar que nas favelas se sabe fazer e muito bem.

16- Cacau: Sim. Vejo isso na prática em todos os debates, entrevistas e quando ando pelas ruas. Nossa galera já produz há muito tempo. São dezenas de coletivos de cinema no Rio, São Paulo, Minas, Brasília e muitos outros estados. Na internet você pode achar centenas de obras dignas do grande público, o problema é que o mercado não comporta – hoje – toda essa massa produtiva. 5x favela vem, diante desse cenário, dar mais um empurrão e funcionar, principalmente, como uma vitrine para que mais pessoas tenham acesso a essa cinematografia.

– Vocês acham que seus projetos pessoais terão mais chances de serem aprovados a partir de agora?

17- Cadu Barcellos: Acho que estamos em um bom momento, mas não acho que nossos projetos serão aceitam se não forem bons. A qualidade está acima de qualquer coisa.

18- Cacau: Aposto todas minhas cartas nisso. É diferente um de nós chegar numa empresa com seu projeto embaixo do braço hoje e antes do filme. Tivemos muitas dificuldades para captar recursos com sete cineastas iniciantes, mas hoje muitos empresários que não acreditaram devem ter se arrependido. Digo isso não a partir de uma visão subjetiva minha, mas objetivamente porque o filme foi sucesso de crítica e já está sendo de público.

– Como vocês vão administrar as relações de vaidades diante de tanta divulgação e reconhecimento?

19- Cadu Barcellos: Ainda estou me acostumando com esse reconhecimento e em alguns momentos a “tietagem”, mais a realidade nos deixa com o pé no chão. Ainda pegamos o ônibus lotado, temos que tirar daqui pra pagar uma conta ali, colocar lá pra suprir daqui. Então acho que quanto a isso estamos bem tranqüilos.

20- Cacau: Essa equação é complexa e não se resolverá da noite pro dia. Como partimos de um processo de invisibilidade, ser reconhecido pode ser prazeroso, mas também pode trazer transtornos pelo aumento de expectativas inatingíveis ou mesmo por um afastamento de parceiros e amigos. O jeito é nos apegar a eles; os amigos que sempre nos ajudaram, nos cobrando. No lançamento do projeto “Mão na Cabeça”, da CUFA, aprendi uma bela lição com o discurso de Luis Eduardo Soares e a partir dali sempre que dou uma entrevista como esta, sempre que posto uma simples frase dita por uma personalidade em meu twitter, me pergunto o que meus amigos vão pensar ao ler aquilo. Se a resposta for que eles me admiraram por ter me tornado uma pessoa mais ética, não tenho dúvida de que estou no caminho certo. Caso contrário é melhor esquecer. Mas ao mesmo tempo não podemos perder a oportunidade de aproveitar o momento e transformá-lo numa constante. É uma faca de dois gumes.

COMENTÁRIOS:

Comentário: Boa Cacau, Cadu e demais. Boa sorte sempre! Aos \”homens de preto\”. kkk Clayton
Clayton Vidal – RJ

Comentário: \”Agora por nós mesmo\” é, pra mim, o melhor conceito que filme 5X Favela trás. Os entrevistados deixam transparecer essa necessidade de produzir uma compreensão da favela pelos próprios moradores. E mais, a partir disso, influenciar as outras representações sociais existentes. A maior conquista do filme pode ser pensada pelo sucesso de bilheteria: mostra que grande parte da sociedade brasileira quer entender essa (re)contrução da favela por seus moradores. O diálogo estará se ampliando entre as realidade sociais desiguais e, por isso, acredito no filme como um novo divisor de águas em nossa cultura nacional. Parabéns aos produtores!
Paulo Pedrassoli – PR

Comentário: Lição de perseverança, identidade, reconhecimento e atitude. Dentre outras coisas eles nos mostraram um leque de possibilidades que por vezes igoramos por nos fecharmos as condições impostas pela sociedade. Com muita qualidade e profissionalismo colocaram 5 faces das muitas que a favela tem! estou extasiada…
Yaisa Santos – RJ

Comentário: Em 1961, 5x Favela foi uma produção que reuniu cinco diretores da classe média se voltando para a favela. Agora, a diferença é que os diretores atuais são habitantes da Favela, mostrando 5 episódios diferentes, porém sem apenas o estigma conhecido de que favela é sinonimo de bandido-drogas-tiroteio. Uma visão realistica, em uma historia contada por eles mesmos, ou melhor, por nós mesmos! Parabéns a todos!
Nana – GO

Comentário: Quando comecei a ler esse entrevista,deu para perceber que eles nunca deixarão de acretidarem em si proprio, mesmo com toda dificuldade uma lição de pura perseverança.meus parabéns 5 vezes favelas…
JOSE CARLOS- CANÙ – RJ

Comentário: Tudo que li sobre até agora me fazem entender que eles falam com muita propriedade de temas como ética e educação, amizade e amor, solidariedade e tolerância, família e comunidade, sem ignorar a violência e as dificuldades cotidianas de que sofrem os moradores de comunidades e sem deixar a ternura e humor de lado. Cacau e Cadu parabéns por esse grandioso trabalho.
Raphael Faria – RJ

Comentário: Que bom ver essas ações sendo efetivadas. São esses relatos que mudam essa visão ruim de nossas favelas. Vocês mostram que queremos que a favela conte os seus desejos, suas lutas diárias e que, juntamente com os governantes, possam influenciar diretamente na proposição da sociedade justa, solidária, igualitária e constantemente sonhada.
Danillo Bitencourt – BA

Comentário: Interessante sabermos como foi gravar o filme, se, como dizem, fazer filme no Brasil é difícil, gravar um filme com a história de quem tantas vezes é esquecido.
Joana Miranda – PR

Comentário: São histórias como essa, que nos damos conta que extravasar os limites e romper barreiras é possivel. Não existe dificuldades para aqueles que acredita, que podem fazer mais. E melhor, fazem realmente. Cacau e Cadu podem acreditar, esse momento de \”tietagem\”é fruto da dedicaçao e comprometimento de vocês com a excelência. Todas as dificuldades serviram de adubo para o sucesso maravilhoso de vocês. Sigam firmes, porque ainda tem muita coisa boa pra chegar!
Maria Dinora Rodrigues – RS

Comentário: Vendo hoje tudo oque acontece no cinema nacional, podemos sentir um pouco do gosto da vitoria, pois quando leio uma entrevista de pessoas como Cacau Amaral, o qual conheco pessoalmente, e meu amigo em particular e ainda dirigindo um projeto como esse o 5X Favela, sinto um orgulho imenso, pois acredito muito nopotencial de cada um envolvido nisso e sei que irao muito mais longe, parabens 5X Favela, parabens a todos.
Wellington Galdino – RJ

Comentário: Lição de perseverança, identidade, reconhecimento e atitude. Dentre outras coisas eles nos mostraram um leque de possibilidades que por vezes igoramos por nos fecharmos as condições impostas pela sociedade. Com muita qualidade e profissionalismo colocaram 5 faces das muitas que a favela tem! estou extasiada…
Yaisa Santos – RJ

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Entrevista Cacau Amaral – por Alessandro Buzo

Conheci o Cacau Amaral, por volta de 2002 no Rio de Janeiro, nos rolê com o pessoal do Movimento Enraizados, ele era integrante do grupo Baixada Brodhers.

Ele venho cantar na primeira edição do meu evento “Favela Toma Conta”, na rua da minha casa no Itaim Paulista no ano de 2004. Depois disso nos encontramos várias vezes, ele sempre leu meus livros e eu acompanhava seus corres e lembro dele se aventurando (ainda bem) pelo audio visual, recebia emails convocando pra filmagens de seus primeiros curtas.

Cacau Amaral é uma pessoa sincera, amiga e daqueles que tem o dom da disposição.
Hoje ele é um dos diretores do premiado 5X Favela , Agora Por Nós Mesmos, em cartaz nos cinemas.
Dá um puta orgulho ver o amigo crescer, pra sabermos mais sobre esse momento especial na sua vida, entrevistamos ele com exclusividade para nossos Blog´s.
http://www.buzo10.blogspot.com
http://www.buzoentrevista.blogspot.com
http://www.nossocinemabr.blogspot.com

Alessandro Buzo: Cacau Amaral, te conheci no Hip Hop, no grupo Baixada Brodher, qual sua ligação atual com o movimento ??

Cacau Amaral: Estou produzindo um CD chamado “O cinema é igual o rap”. Nele mostro o paralelo entre as duas faces de minha obra, pois da mesma forma que decidi fazer rap após ouvir “Hip hop cultura de rua”, decidi fazer filmes ao assistir os filmes da cultura “faça você mesmo”. Fora isso, gravei recentemente a música Tensão, agressão, reconciliação, (http://www.myspace.com/cacauamaral) para o CD do Antizona, com outros 9 MCs cariocas; entre eles Slow, Dudu de Morro Agudo e Mr Boca. Em 5x favela, fiz questão de deixar a marca do hip hop, com vários grafiteiros cariocas nos intervalos das histórias e MV Bill assinando a música tema com Afroreggae.

Antes produzi a Lica, Soul Cris, Bia, Sandra MC e Charlene na música Guerreira que é guerreira nunca gela, do CD Mulheres do hip hop. É muito louco produzir cinco minas do Rio Grande do Sul, Paraná, Ceará, Acre e tal. Fiz um loop, enviei pra elas fazerem a letra e gravarem com o Fábio ACM e MR Zoy. Depois eles me enviaram a capela e mixei em meu estúdio. O Resultado foi muito positivo. Acabei colocando na trilha sonora de meu filme Guerreiras do Brasil.
Também tenho feito muito rap pro cinema. Em 1 Ano e 1 Dia produzi um, além de colocar o Poder Consciente; e em Melhor que um poema produzi 11 raps, um para cada B.Boy que aparece no filme: Jagal, Reis, Gaúcho, e mais um montão.

Buzo: Você e seu grupo cantaram em 2004 no Itaim Paulista, no primeiro FAVELA TOMA CONTA ? O que lembra desse dia ?

Cacau Amaral: Lembro do Ferrez; do Nino Brown e principalmente da Giovana, que acolheu eu e Dmc na casa de seus pais. Mas a maior lição que tive nesse dia foi ver a molecada sentada no meio-fio lendo gibi da turma da Mônica e você falando sobre seu sonho de montar uma livraria. Parece que foi ontem. Tenho tudo isso filmado. Quem sabe a gente monta um documentário com essas imagens.

Buzo: Hoje o evento vai para 23a edição, como vê a importancia da continuidade ?

Cacau Amaral: Tenho muito orgulho de ter participado do primeiro Favela Toma Conta, ainda mais sabendo que ele continua rendendo frutos até hoje. Você é um guerreiro e merece todo sucesso do mundo. Os grupos ganham com isso por terem espaço pra se apresentar, mas quem ganha muito mais ainda é a comunidade, que tem a oportunidade de curtir música popular de verdade. E também de conhecer a literatura, começando cedo com gibis, migrando pros romances e fechando o ciclo, escrevendo.

Buzo: Como e quando teve o primeiro contato com o Audio Visual ?

Cacau Amaral: Quando gravamos o clipe Ataque verbal, em 2002.
Sempre sonhei com esse clipe e ao descobrir que ele custava muito mais do que poderia pagar, resolvemos produzir nós mesmos. Tinha muita gente boa na CUFA ajudando a gente: Miguel, Cacá, Godot, Dido, Dragaud. Esses caras mostraram o que é cinema pra gente. Minha intenção era só gravar o clipe. Não pensava em fazer filmes, mas fui fisgado pela arte. Afinal, o cinema é igual o rap.

Buzo: Qual foi seu primeiro documentário e que ano foi isso ?

Cacau Amaral: 1 Ano e 1 Dia. É a maior realização de minha vida, depois de 5x favela. Foi logo depois do clipe. Pra produzir o clipe tivemos que estudar e estudar muito. Assistia tudo relacionado ao cinema brasileiro… soviético… Fiquei apaixonado pelos filmes de Vertov. Filmamos a festa de um assentamento e roteirizei o documentário na ilha de edição. Foi um dia de filmagem e oito meses de edição, porque não sacava nada do assunto. A única experiência havia sido o clipe. Aí o Rafael Dragaud me ensinou a fazer roteiro clássico pra ficção. Dividi todo material filmado em 12 passos, de acordo com o livro “O herói de mil faces”. Era o que tinha em mãos. Foi só pra mostrar pros amigos, mas acabei ganhando três prêmios: o primeiro na Mostra do Filme Livre, no Rio; o segundo no Festival da Unioeste, Paraná e por fim um prêmio internacional, na Mostra de Jovens Realizadores do Mercosul. Tenho muito orgulho desse filme. Hoje tive mais uma resposta positiva pra ele. Resisti durante cinco anos à mutilação de 1 Ano e 1 Dia, mas agora que o youtube aceita filme de 15 minutos, pude disponibilizá-lo na íntegra. Fiquei muito feliz, pois 12 horas após levantar o filme, mais de cem pessoas já haviam azssistido. O link é esse.

Buzo: Imaginava chegar onde chegou ? Ter a visibilidade que o 5X Favela te deu agora ?

Cacau Amaral: Imaginava e imagino muito mais. Tenho o maior prazer em falar isso sem nenhuma arrogância, porque 5x favela é fruto de um trabalho longo, meu e de um montão de gente que nunca desistiu. Mas sei que esse não é o fim da linha. Muitos e muitos filmes virão. Temos muitas histórias pra contar ainda. Muitas histórias.

Buzo: Você assistiu meu filme “Profissão MC”, o que achou dele ?

Cacau Amaral: Achei uma puta iniciativa. O mercado cinematográfico é restrito e isso não é exclusividade do Brasil. Tanto eu como você poderíamos cruzar os braços e colocar a culpa nos governos ou em outros cineastas, mas o mais coerente é correr atrás do prejuízo. Fazer um filme não é tarefa fácil pra ninguém, na periferia ou fora dela.
Profissão MC é mais uma obra de guerrilha, uma referência pra uma porrada de gente que poderá falar: Alessandro Buzo é um cineasta com a minha cara. Ele se veste igual a mim, tem os mesmos costumes que eu. Se ele pode eu também posso.

Buzo: Filmes nacionais que marcaram sua vida ?

Cacau Amaral: O mundo mágico dos trapalhões, Gangazumba, Carolina, Manual prático pra atropelar cachorro, Pixote, Durval discos, A ópera do malandro, O pagador de promessas, Cidade de Deus, Compasso de espera, O invasor, À meia-noite levarei sua alma, Os saltimbancos trapalhões.

Buzo: Baixada Fluminense ?

Cacau Amaral: Periferia é Periferia em qualquer lugar

Buzo: Periferia, existe um BOOM cultural, como vê a cena da cultura na periferia e o que destaca ?

Cacau Amaral: Há muito tempo as pessoas mais visionárias já perceberam que caminhamos para um futuro onde a única alternativa de sobrevivência será a tolerância. O passado nos mostrou que todo extremismo leva a consequências desastrosas. A hegemonia da cultura centralizada não tem trazido benefícios para as pessoas e por mais que certas mentes preconceituosas resistam em aceitar, a periferia aprendeu a viver em harmonia entre si. A falta de uma porrada de coisas que temos direito nos fez entender que a solidariedade não é apenas uma virtude, mas uma arma. Sem ela nunca teríamos chegado onde chegamos. Agora é a hora de dividirmos nosso conhecimento com nossos vizinhos do centro.

Dentro desse contexto destaco o hip hop que nunca se calou diante das atrocidades impostas à periferia. Se hoje o cinema colhe frutos desse boom, é porque vários malucos perderam noites e mais noites de sono difundindo essa cultura, primeira dentro da própria periferia e agora fora dela.

Buzo: Qual o seu proximo projeto no cinema ?

Cacau Amaral: Estou terminando um roteiro para o próximo longa. Quero contar muitas histórias sobre nosso país. Tem muita coisa que vemos e vivemos dentro e fora da periferia. Ela é um retrato 3 por 4 do Brasil.
Mas agora estou 100% dedicado a 5x favela. Tivemos a primeira consagração com a conclusão do filme, depois com a crítica – que adorou a obra. Agora é a vez da consumação com a presença do público nas salas e garantia de que virão muitos outros filmes. O público é a figura mais importante nessa história, pois fazemos o filme pra ele.

Buzo: Um ator brasileiro ?
Cacau Amaral: Lázaro Ramos.

Buzo:Uma atríz, também brasileira ?
Cacau Amaral: Roberta Rodrigues.

Buzo: Um diretor ?
Cacau Amaral: Cadu Barcelos. Fiquei muito impressionado com sua história no 5x.

Buzo: Como foi ganhar prêmio com o 5X Favela, como foi o momento ?
Cacau Amaral: Estava sentado com o elenco assistindo a cerimônia de premiação quando anunciaram o primeiro prêmio de 5x favela, “Melhor filme pelo juri popular”. Fiquei doido. Corri pulando pro palco pra receber a estatueta e fizemos um discurso inflamado, como se fosse o último de nossas vidas. Sentei feliz páca e enquanto ainda me ajeitava no lugar, anuncia-se o segundo prêmio, “Melhor trilha sonora”. Depois foram o de “Melhor montagem”, “Melhor roteiro”, “Atriz coadjuvante”, “Ator coadjuvante” e o prêmio maior do festival: “Melhor filme pelo júri oficial”. Foi muito maneiro. Ficamos cansados de sentar e levantar sete vezes.

Buzo: Lançar comercialmente o filme, como tem sido as exibições de Pré-Estréia?

Cacau Amaral: Antes mesmo de lançarmos o filme fomos selecionados para o festival de Cannes. Estava com muito medo da crítica daquele país, pois fizemos o filme pensando em nós mesmos. Não fazíamos ideia se nossas piadas funcionariam fora do Brasil, mas pra nossa surpresa fomos aplaudidos de pé por dez minutos.

No Brasil começamos com duas prés em São Paulo, ambas lotadas. A primeira com debate, onde percebemos que o púbico gostou muito do filme. Esse termômetro foi imprescindível para vermos que estávamos no caminho certo. Todos entenderam nossa mensagem. Depois foi a vez do Rio. Cinema igualmente lotado. De lá pra cá fizemos vários debates, no Cinecufa, Em O Globo, um só para professores. A cada bate papo sentimos mais e mais a sensação que fizemos um bom trabalho.

Buzo:Um sonho?
Cacau Amaral: Tenho muitos. Continuar fazendo filmes, lançar um novo disco de rap e contribuir com a educação cinematográfica do Brasil.

Buzo: Quem é CACAU AMARAL no dia a dia?

Cacau Amaral: Prefiro deixar meus filmes falarem por mim.

Buzo: Considerações finais?

Cacau Amaral: A melhor parte disso tudo é saber que minha obra a cada dia se aproxima mais e mais do que me propus a fazer desde o início. Seja no cinema, na TV, no teatro ou na música; o que mais importa pra mim é o conteúdo. E sempre que puder dar entrevistas pra meus irmãos e eles perceberem que contribuí pra que o Brasil fosse um país melhor para se viver, terá valido a pena.

DMC e Cacau Amaral (formavam o Baixada Brothers), na cozinha da minha casa em 2004, no dia da primeira edição do evento “Favela Toma Conta” que acontecia no momento da foto, em frente da minha casa.

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5x Favela – Agora por Nós Mesmos por Francisco Russo

Publiccado em: adorocinema

Nem Só de Boas Intenções se Faz um Bom Filme

Antes de tudo, é preciso dividir 5x Favela – Agora por Nós Mesmos, o filme, do lado social nele envolvido. O projeto tem enorme valor pelas oficinas técnicas promovidas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, oferecendo a chance de adentrar e seguir carreira no cinema. Mas também não é por causa disto que o filme deva ser, necessariamente, elogiado. Ainda mais quando apresenta graves defeitos em sua realização.

O maior deles é a constante sensação de lição de moral que permeia o filme, muitas vezes apresentada de forma ingênua e moralista. O primeiro episódio, Fonte de Renda, é o maior exemplo. A história do jovem universitário que mora na favela e passa a levar drogas aos amigos, para conseguir dinheiro para bancar os estudos, serve ao velho lema “sou pobre, mas honrado”. Até a punição está presente, suficiente para que o protagonista perceba o delito sem sofrer um grande trauma. Tudo muito certinho, com a missão de transmitir uma lição aos espectadores. Só faltou o “não façam isso, crianças!” para ficar completo.

O terceiro episódio, Concerto para Violino, faz ainda pior. Na tentativa de mostrar, de forma explícita, a existência de policiais que também são bandidos, o que apresenta? Um policial que, para recuperar armas roubadas de um batalhão, entrega uniformes policiais e um arsenal nas mãos de bandidos rivais. E ainda desfilam à vontade nas ruas, quase que à espera de fotógrafos que registrem o feito. Por mais que esta dualidade exista, não é de forma tão escancarada. Ou seja, mais uma vez a ingenuidade fala mais alto para retratar um tema sério.

Por outro lado, o segundo episódio, Arroz com Feijão, desperta boas risadas. Graças especialmente aos seus intérpretes mirins, Juan Paiva e Pablo Vinícius, verdadeiras figuraças! Apesar de também contar com uma lição de moral embutida, sua história é narrada com leveza e tocando em questões polêmicas que, apesar de aparecerem como pano de fundo, chamam a atenção. É, de longe, o que há de melhor no filme.

Os outros dois episódios, Deixa Voar e Acende a Luz, são razoáveis. O primeiro explora uma situação real, o medo existente pela divisão da favela entre facções rivais, mas desliza em mudanças de comportamento bruscas demais, incompatíveis com o ambiente. Já o último apresenta a favela sob o estereótipo da bagunça animada. Funciona, mas não deixa de ser uma visão parcial sobre o local.

Publiccado em: http://www.adorocinema.com/colunas/5x-favela-879/

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5X Favela – Agora Por Nós Mesmos

Publicado em: vejasp.abril

Categoria: Filmes
Gênero: Comédia Dramática
País / Ano: Brasil / 2010
Duração: 103 minutos
Direção: Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcelos, Luciana Bezerra
Elenco: Silvio Guindane, Flavio Bauraqui, Hugo Carvana, Vitor Carvalho
Censura: 14 anos

Resenha por Miguel Barbieri Jr:

São cinco episódios, dois deles dirigidos a quatro mãos, em projeto capitaneado por Cacá Diegues, que dirigiu um segmento do Cinco Vezes Favela original, de 1961. O subtítulo explicita a proposta atual: dar a jovens cineastas das comunidades carentes do Rio de Janeiro a oportunidade de fazer cinema. Três curtas são formidáveis (o segundo e os dois últimos); o primeiro revela-se apressado e o terceiro beira o dispensável. O saldo, portanto, é bastante promissor. A maioria das histórias, sensatamente, foge dos clichês — não há o glamour do mundo do crime na linha de “Cidade de Deus” nem o humor sarcástico de “Tropa de Elite”. Trata-se de uma comédia dramática de costumes que espelha, como poucas fitas recentes, a cara do povo brasileiro. “Fonte de Renda” mostra a difícil jornada de um favelado (papel de Silvio Guindane) rumo à faculdade de direito. “Arroz com Feijão” retrata a saga de dois garotos (Juan Paiva e Pablo Vinicius) para comprar um frango. A trajetória de três amigos — um policial, um traficante e uma instrumentista — estão no violento “Concerto para Violino”. Uma pipa será o pomo de discórdia no Complexo da Maré em “Deixa Voar”. O ponto mais alto ficou para o fim: “Acende a Luz” enfoca, com singeleza e sagacidade, o drama de um morro às escuras no dia de Natal. Merecidamente, o longa faturou sete prêmios no último Festival de Paulínia, incluindo os de melhor filme e melhor roteiro. Estreou em 27/08/2010.

Publicado em: http://vejasp.abril.com.br/cinema/5x-favela-agora-por-nos-mesmos

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